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Número 463 - 29 dezembro de 2003

O que ainda terá que ser feito para
evitar que 2004 seja mais um ano perdido

Apesar da boa obra feita na "estrutura" do edifício econômico, o governo Lula ainda precisa reparar o "telhado" para evitar que o mau tempo estrague toda a recuperação realizada

 

Para diminuir a vulnerabilidade externa e evitar ficar refém da anunciada alta dos juros dos EUA, a economia brasileira precisa…

“… completar o ajustamento estrutural do balanço de pagamentos em conta corrente, introduzir controles preventivos na conta de capitais, administrar o perfil da dívida externa e reforçar o nível das reservas internacionais do país.”

Paulo Nogueira Batista Jr., FSP, 18.12.2003

A questão relevante é saber se vai dar tempo de fazer tudo isso antes do impacto que o fluxo de capitais para os países emergentes sofrerá, a partir de meados de 2004, ocasião em que os analistas vislumbram o início do aumento dos juros nos EUA.

“Uma parcela importante do aumento da liquidez internacional direcionada ao Brasil foi devida a fatores globais - e não domésticos. Por isso mesmo, é preciso cuidado na hora de traçar cenários para 2004. Lá fora, afinal, existe um mundo perigoso e cheio de desequilíbrios que pode mudar muito o humor dos mercados. Para piorar, some-se o provável aumento nas taxas de juros globais - um processo que já foi iniciado na Inglaterra e na Austrália e que se deve intensificar, mesmo no melhor dos mundos, a partir do segundo semestre de 2004.”

Paulo Tenani, revista Exame, 24.12.2003

As conquistas alcançadas em 2003 foram importantes mas se deram “ao nível do chão”, ou seja, da “estrutura” da economia. A vulnerabilidade externa (as “avarias no telhado”) não foram adequadamente atacadas. E quando o telhado está danificado, fica todo mundo com um olho no trabalho e outro no tempo. Se “nublar”, cada um corre para se proteger do “aguaceiro”. Reforçar a edificação da economia é importante mas o telhado não pode ser esquecido sob pena de se ver parte importante do esforço feito ir por “água abaixo” por falta de “cobertura” compatível com a reforma realizada.

É, mais ou menos, desse modo que se encontra a obra econômica empreendida pelo governo Lula: bem acabada mas com telhado avariado. Urge correr para fazer os reparos complementares, antes que comece a “chover”. Afinal, as pessoas estão acreditando que dá para retomar as atividades e, por isso, o próximo ano vai ser bom “desde que não chova”. Só que a “chuva” pode demorar mas vem porque, apesar das “mudança climáticas globais”, chover ainda não saiu de moda.

“… é possível que - como espera grande parte do mercado financeiro - o ano de 2004 seja marcado por uma recuperação cíclica da economia brasileira. Pela primeira vez em sua história recente, o Brasil entrou em uma dinâmica de círculo virtuoso, no qual taxas de juros reais tornam-se compatíveis com crescimento econômico e estabilidade da dívida pública. Porém 2004 deve ser também o ano da cautela.”

Paulo Tenani, revista Exame, 24.12.2003

Portanto, é aconselhável manter um olho nas oportunidades propiciadas pelo ajuste e outro nas obras do “telhado” para não ser pego de surpresa. Teoricamente a “estiada”, o período seco, deve ir até o início do primeiro semestre/2004, quando deve ser iniciada a mandinga de “fazer chover” do grande pajé Alan Greenspan (aumento da taxa básica de juros paga pelo Tesouro dos EUA).

Até lá, vamos cobrar do governo os ajustes complementares necessários para que não se reprise o filme “A Tempestade”, tantas vezes visto durante a era FHC. Vamos cobrar do governo empenho para mudar o enredo. Ninguém agüenta mais o mesmo final monótono e sem graça.

Número 462 - 22 dezembro de 2003

O perigo de achar que não há mais
nada a temer porque “o pior já passou”

Com data marcada para começar, a alta dos juros dos EUA pode mudar o cenário externo e, com isso, atrapalhar a previsão otimista de retomada do crescimento econômico em 2004

 

Não, o pior não passou ainda. Apesar da grande melhora dos indicadores macroeconômicos brasileiros em 2003, a vulnerabilidade externa do país continua grande. Por si só, essa fragilidade torna temerária a crença de que o caminho do crescimento está todo livre em 2004.

O próprio FMI que vem de renovar mais um acordo com o país e que não se conteve em elogios à política econômica adotada por Palocci e equipe, adverte em nota divulgada por ocasião da renovação do acordo:

“Apesar dos recentes sucessos, o Brasil continua vulnerável a mudanças negativas no sentido do mercado.”

Fundo Monetário Internacional, Washington, D.C.

As “mudanças negativas no sentido do mercado” a que se refere o Fundo são a mais do que provável virada de humor da política macroeconômica dos EUA capitaneada pelo Fed (Banco Central de lá). Apesar de ter mantido inalterada a taxa básica de juros em 1% ao ano (a menor dos últimos 45 anos), na última reunião do seu Comitê de Política Monetária, o Federal Reserve não vai ficar paralisado quando a vigorosa retomada da produção dos EUA pressionar a inflação para cima. Segundo os analistas, essa pressão inflacionária deve começar a se manifestar em meados de 2004.

“Economistas dizem que o BC americano já começa a preparar o terreno para um alta da taxa de juros (…) na reunião de junho.”

Folha de S. Paulo, 10.12.2003

Com essa elevação consumada, a situação do Brasil se complicará porque as aplicações em títulos norte-americanos ficarão mais atraentes por conta de uma relação custo/benefício mais vantajosa para o investidor.

O fluxo de capitais para o Brasil, por conseguinte, diminuirá, valorizando internamente a moeda norte-americana. Dependendo do tamanho dessa valorização, a pressão inflacionária aumentará e, com ela, a disposição do Banco Central brasileiro de também elevar suas taxas, retomando todo o processo de escalada câmbio-juros-inflação novamente.

“… os riscos que corremos quando a bolha [dos juros baixos nos EUA] estourar são imensos. Na última vez que uma correção mais brusca ocorreu, em 1994, o México quebrou. O Brasil foi atingido de modo suave em razão do sucesso do Plano Real. Agora a situação é diferente, pois a crise, quando vier, será mais grave pela dimensão e extensão dos desequilíbrios atuais.”

Luiz Carlos Mendonça de Barros, economista

Justamente por conta desses riscos concretos, a euforia com os resultados obtidos em 2003, embora compreensível face ao cenário de desalento do final de 2002, é perigosa e desviante. É um risco nada desprezível colocar todas a fichas na aposta de uma recuperação irreversível da economia em 2004.

“… o otimismo do presidente e dos seus assessores pode ser muito perigoso.”

Luiz Carlos Mendonça de Barros

Cautela e caldo de galinha, conforme reza a sabedoria popular, nunca fez mal a ninguém. Otimismo demais, descolado da realidade é tão danoso quanto o seu inverso, o pessimismo desalentador.

“… 2004 deve ser também o ano da cautela. Há um risco não desprezível de que a economia global acabe pagando um preço alto demais por postergar durante tanto tempo a resolução de seus desequilíbrios.”

Paulo Tenani, revista Exame, 24.12.2003

Vamos ficar de olho nos sinais e torcer para que o governo tenha tempo de concluir os ajustes necessários, antes que a virada do tempo se consume.

Número 461 - 15 de dezembro de 2003

Os efeitos da vitória sobre a inflação
e o novo desafio reclamado por todos

Depois de um esforço fiscal sem precedentes na história recente, o governo Lula, após vencer a inflação, depara-se com o desafio, por todos reclamado, da retomada do desenvolvimento

Mesmo antes de assumir o governo, o staff do candidato eleito Lula sabia que a sobrevivência política do primeiro governo federal do PT estava intimamente relacionada à vitória sobre a inflação em 2003.

Despertada em meados de 2002 em decorrência do clima de instabilidade econômica instalado pela disputa eleitoral e pela conseqüente escalada do dólar, a inflação ameaçava anualizar-se acima dos 20% e lançava perspectivas sombrias em direção ao ano de 2003.

Se falhasse no esforço de fazer os índices retornarem para baixo da barreira psicológica dos dois dígitos (menos de 10% ao ano), o novo governo teria drasticamente reduzidas suas margens de manobra e ficaria refém do insucesso econômico. Por isso, não hesitou em aumentar os juros nem em elevar o superávit primário para 4,25% do PIB. O resultado foi um aperto fiscal sem precedentes com três efeitos colaterais bem marcantes: (1) juros reais altíssimos (os mais altos do mundo); (2) recessão; e (3) aumento do desemprego.

“Com um crescimento inferior a 1%, Lula terá produzido 1 milhão de novos desempregados em seu primeiro ano de governo. O candidato que sugeria a criação de 10 milhões de postos de trabalho em quatro anos…”

Elio Gaspari, jornalista

Como se pode ver pelas reações que pipocam na mídia, o caminho seguido não deve ter sido (nem está sendo) uma escolha fácil para o governo. As contestações e as acusações de traição aos ideais e às promessas de campanha vêm de todos os lados. Dos “radicais” do partido aos intelectuais da academia; dos “companheiros” da aliança governista aos parlamentares da nova oposição; da mídia “progressista” aos empresários “conservadores”.

Todos parecem pedir “pressa” ao governo na queda dos juros, na iniciativa econômica, na retomada do “crescimento”. Até o próprio presidente, às vezes não consegue se conter e faz promessas do tipo “início para já do espetáculo do crescimento”, com queda rápida dos juros e aumento vigoroso das exportações, retomada das contratações etc.

Toda essa pressa, apesar de meio irrealista, aponta, todavia, para algo que parece ter se tornado um lugar comum na sociedade: não há solução para os nossos problemas recorrentes fora de uma rota firme de desenvolvimento sustentado que permita ao país crescer, com segurança, de forma não interrompida, por anos seguidos. Fora deste caminho, as perspectivas são ruins e as pessoas começam a perceber isso, com uma clareza antes inexistente. Daí, por certo, a insistência da cobrança ao governo.

“A tarefa da construção do círculo virtuoso do crescimento sustentado é desafiadora e complexa mas é possível e pode ser empreendida com êxito se houver determinação e clareza de objetivos.”

Luciano Coutinho, economista Unicamp

Retomar a rota do desenvolvimento sustentado (na casa dos 4% a 5% ao ano, por anos seguidos) é o próximo desafio que se coloca de forma inequívoca para o governo Lula, depois de superado o do controle da inflação. Só assim voltará a dar a sensação de que está fazendo o que prometeu. Para isso, todavia, é indispensável ir além do ajuste fiscal realizado.

“Asseguradas essas duas premissas (inflação baixa e solidez fiscal) é essencial completar a construção de uma imprescindível terceira condição: a da redução duradoura da vulnerabilidade externa da economia.”

Luciano Coutinho, economista Unicamp

Sem essa redução, todo o esforço interno feito pode ir por água abaixo logo que pintar uma nova crise externa.

Número 460 - 08 de dezembro de 2003

Governo Lula prestes a concluir o
seu primeiro tempo com vitória apertada

Apesar de sofrida, a vitória contra a inflação, prestes a se confirmar, dá ao governo Lula uma vantagem a ser bem administrada para garantir a retomada do desenvolvimento sustentado

 

Faltando menos de um mês para completar o primeiro dos seus quatro tempos, pode-se dizer que, pelo menos do ponto de vista econômico, o governo Lula começa ganhando o jogo. Com um placar apertado, mas ganhando.

“A inflação foi derrotada mais uma vez (…), mercê da firmeza da política econômica adotada pelo Governo Lula. O árduo esforço fiscal em curso, expresso na manutenção de um superávit primário de 4,25% do PIB, demonstra inequivocamente o compromisso governamental de manter sob controle o endividamento público.”

Luciano Coutinho, economista, Unicamp

Esse placar temporário, todavia, não significa nenhuma moleza para as próximas etapas. Mesmo para garantir o resultado econômico, ainda há que marcar, pelo menos, mais um gol para não deixar que a vitória escape no tempo regulamentar.

“Asseguradas essas duas premissas (inflação baixa e solidez fiscal) é essencial completar a construção de uma imprescindível terceira condição: a da redução duradoura da vulnerabilidade externa da economia. Isso exige um superávit comercial de grande escala (de 3% a 4% do PIB) por vários anos consecutivos.”

Luciano Coutinho, economista, Unicamp

Essa é uma vantagem a administrar que exigirá grande atenção e cuidado do governo e da sociedade. Na prática, significa a manutenção por muito tempo do bem sucedido esforço exportador dos últimos dois anos.

Essa necessidade torna-se premente porque não temos “saldo de gols” (reservas cambiais) suficientemente, capazes de nos manter com tranqüilidade na competição.

“País que tem (…) uma dívida que é 3,5 vezes o valor de suas exportações, para mim já bateu no limite do endividamento externo, há muito tempo. (…) Esse passivo obriga o país a pagar US$ 25 bilhões a US$ 30 bilhões de juros e remessa de lucros e dividendos por ano, sem importar nada. (…) Você vai precisar de uma política para segurar o câmbio com reservas. (…) Estamos em um mundo onde as reservas da China batem em US$ 400 bilhões e a ?ndia está com mais de US$ 100 bilhões.”

Yoshiaki Nakano, economista, FGV/SP

Reservas cambiais minimamente confortáveis são indispensáveis para recolocar o Brasil de volta na “primeira divisão”, no grupo de países considerados financeiramente “sérios” (que honram os contratos assumidos, pagam suas obrigações, não dão calote nas suas dívidas, etc.).

“Um colchão adequado de reservas propiciará ao país desfrutar de uma taxa de risco cambial muito mais baixa e alcançar em poucos anos uma taxa de juros reais bem mais reduzida (inferior a 6% a.a.). Com efeito, é perfeitamente factível almejar, em cerca de três anos, o status de ‘investment grade‘. Esse objetivo, se alcançado, representaria a consolidação de condições de autonomia e robustez da política de crescimento.”

Luciano Coutinho, economista, Unicamp

Só assim, com resultados consistentes de médio prazo, é possível almejar a conquista das condições mínimas, indispensáveis, para a retomada daquilo que a sociedade anseia há duas décadas seguidas: a retomada do desenvolvimento em bases sustentáveis e duradouras.

Número 459 - 01 de dezembro de 2003

Mais do que “as pessoas”, os grupos
é que são as verdadeiras fontes de mudança

São as pessoas trabalhando em grupos, e não isoladamente, que fazem, de fato, a diferença entre organizações bem sucedidas e aglomerados de talentos vaidosos e improdutivos

 

Bem ao contrário do que o senso comum acostumou-se a exaltar, não são as pessoas - “o ser humano” - que fazem acontecer as mudanças nas organizações. São os grupos, ou seja, as pessoas organizadas e trabalhando em equipes. Isoladas, elas pouco podem, por melhor, mais dotadas ou bem intencionadas que sejam.

“Os grandes grupos demonstram a mentira da incrivelmente persistente idéia de que instituições vitoriosas são a extensão da sombra de um grande homem ou de uma grande mulher.”

Warren Bennis e Patrícia Biederman

Bennis & Biederman, ao fazerem essa afirmação no livro “Os Gênios da Administração”, apenas verbalizam o que, quando observado com cuidado, se verifica cotidianamente nas organizações de todos os tipos: grandes talentos individuais perdidos ou inadequadamente aproveitados por falta ou insuficiência de trabalho em equipe.

No país do futebol, o funcionamento dos times vitoriosos ilustra bem essa situação. Quantas e quantas agremiações têm fracassado, a despeito de contarem com talentos diferenciados (”craques”) e, muitas vezes, até, por causa disto, mesmo? Por outro lado, quantos e quantos times, considerados, mesmo, “medíocres” em termos de talentos individuais, não têm protagonizado trajetórias vitoriosas, muitas vezes ganhando campeonatos nos quais começaram como “azarões”? A cada ano, vemos, pelo menos, um desses exemplos no cenário nacional.

Se talento individual fosse, por si só, garantia de sucesso coletivo, nenhuma seleção de futebol precisaria mais do que ser convocada para ter garantida uma campanha vitoriosa. A prática demonstra, justamente, o contrário.

Simplesmente convocada e deixada ao “acaso”, uma seleção de “craques” apenas inicia a combustão de uma devastadora “fogueira das vaidades” que vai arder até a calcinação completa de qualquer possibilidade de construção produtiva. Imagine-se uma seleção brasileira de futebol formada de talentos individuais do porte e com egos da dimensão dos de Romário. O que seria deste malfadado time? Por certo não ganharia uma partida nem contra o ?bis, autodenominado o “pior time do mundo”. Há quem, até, duvide da capacidade desta inusitada seleção conseguir, sequer, entrar em campo…

É importante, todavia, deixar bem claro que não se está defendendo, nem de longe, o nivelamento “por baixo” dos talentos individuais.

“Não - o trabalho de equipe não significa baixar o nível de alguém extremamente talentoso para o menor denominador comum (…) Os times espetaculares invariavelmente são constituídos por indivíduos talentosos, porém, eles conseguem cultivar o ego e ganhar os campeonatos com uma equipe. Ao mesmo tempo.”

Tom Peters, Você S/A, maio/2001

A tarefa e a responsabilidade de conseguir esse que é o verdadeiro “Ovo de Colombo” do desempenho empresarial conseqüente é de, ninguém mais, ninguém menos, que o gerente - o líder, no esporte - o coacher. Com uma principal matéria-prima: energia organizativa.

“Cada companhia bem-sucedida, cada equipe bem-sucedida e cada projeto bem sucedido funcionam com apenas uma coisa: energia. A tarefa do líder é transformar-se na fonte de energia que impulsiona os outros .”

Tom Peters, Você S/A, maio/2001 

Fazer isso sem se transformar, ele próprio, naquilo que tem por obrigação combater (um ego superinflado), é um desafio adicional que precisa ser perseguido com determinação e persistência porque as tentações serão diretamente proporcionais aos êxitos conseguidos. Quanto maiores os egos sem controle, maiores os fracassos.

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