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Número 458 - 24 de novembro de 2003

Definir prioridades ajuda a dizer não
e a levar uma vida mais descomplicada

Dizemos "sim" quando devemos dizer "não" por receio de magoar os outros, por isso é preciso estabelecer prioridades para definir nosso foco e poder levar uma vida menos complicada

 

Dizer “não” às solicitações descabidas que recebemos, como abordado no Gestão Hoje anterior (ver número 457), é uma das coisas, ao mesmo tempo, mais importantes, difíceis e exigentes com as quais nos deparamos para a administração cotidiana do nosso recurso mais precioso que é o tempo.

Luiz Carlos Martins no livro “Assertividade - A Arte de ser Objetivo” (Editora Suma Econômica) faz um comentário muito interessante sobre o porquê de dizermos “sim” quando deveríamos dizer “não”.

“Dizemos sim porque (quase sempre) não queremos pôr em risco a estabilidade da nossa relação com a pessoa; dizemos sim por medo de perder o emprego, por não querer magoar alguém, para evitar um conflito com um colega de trabalho etc. Depois vem o arrependimento e uma sensação horrível de mal-estar.”

Luiz Carlos Martins

O drama de dizer “não” é, justamente, o do risco que encerra. Todo não é um incômodo, uma porta fechada, uma certeza de frustração e uma incógnita sobre a reação do interlocutor. Por isso é mais fácil, embora muito mais perigoso, dizer “sim”. O bônus do “sim” é imediato e o ônus vem depois, justamente o contrário do “não”.

“A palavra ‘não’ - que é uma das cinco primeiras palavras que aprendemos na vida - é, com certeza, a palavra que encerra maior risco na comunicação interpessoal (…) Sempre que dizemos ‘não’ quebramos a expectativa do nosso interlocutor e ficamos sem saber que rumo tomará nossa relação com ele. É por isso - por medo das possíveis conseqüências - que muitas vezes dizemos ’sim’ quando, na verdade, gostaríamos de dizer ‘não’. Um ’sim’, nestas horas, pode até evitar um estrago maior na nossa relação mas, com certeza, fará um estrago bem maior na nossa auto-estima.”

Luiz Carlos Martins

Elaine St. James, autora do livro “Simplify your Life: 100 Ways to Slow Down and Enjoy the Things that Really Matter”, chega a ser peremptória em relação à questão:

“Você não consegue levar uma vida simples se não souber dizer não”

Elaine St. James

À moda dos norte-americanos, que são de uma objetividade prática, na maioria das vezes, desconcertante, avança numa receita de como preparar-se para dizer não. A sugestão, certamente, não pode aplicar-se integralmente à nossa índole latina e, mais do que isso, ibérica, mas pode servir como uma interessante referência.

“Ninguém consegue manter mais de três prioridades (…) Descubra quais são suas prioridades e diga não para todo o resto.”

Elaine St. James

Não é fácil, na vida real, muito menos na vida real latina, nem escolher três prioridades nem, muito menos, dizer não para todo o resto. Todavia, vale a sugestão como tentativa. De fato, a simples experiência demonstra que quem tem muitas prioridades, na prática, não tem prioridade nenhuma. Por isso, ter clareza sobre qual deve ser o foco de nossas preocupações, ajuda (e muito) a escolher melhor ao que e a quem dizer “sim” ou “não”.

O principal de tudo, depois da convicção da necessidade de dizer “não”, é fazê-lo de um modo elegante e suportável para o interlocutor. Um “não” dito de uma forma pouco cuidadosa pode, na prática, mostrar-se tão danoso quanto o “sim” que não deveria ser dito. Portanto, todo o cuidado é pouco com o “não” porque não basta ele ser legítimo, tem que ser, também, competente.

Número 457 - 17 de novembro de 2003

A verdadeira arte de dizer “não”
é evitar que o destinatário fique magoado

Uma das maiores causas de desperdício cotidiano de tempo é a dificuldade de dizer "não" às solicitações impertinentes que recebemos e que nos desviam a atenção do que é essencial

 

Assim como precisamos aprender a dizer “não”, com veemência, àqueles que nos roubam a dignidade de cidadãos (ver número 456), precisamos, também, aprender, no exercício do nosso papel profissional, a dizer “não” àqueles que nos tomam, de forma descabida, o precioso tempo cotidiano.

Com uma diferença: no caso deste “não”, é fundamental proceder com cuidado e atenção. Afinal, se nos pedem algo, mesmo que descabido, é porque nos é reconhecida a necessária competência para realizar a coisa pedida. Raramente alguém pede algo importante a quem considera incompetente.

“Basta demonstrar um mínimo de aptidão para resolver problemas para que todos (colegas, superiores, subordinados, cônjuges, filhos, amigos) nos procurem em busca de soluções. Uma a uma, as obrigações caem sobre nossas costas…”

Jean-Louis Servan-Schreiber

Recusar, portanto, o que não cabe é, muitas vezes, uma questão de “sobrevivência” profissional porque quem tem responsabilidade não tem tempo sobrando para fazer tudo o que lhe pedem. Se tentar, fracassará. Recusar, sim, mas (como diz Servan-Schreiber, em seu ótimo livro “A Arte do Tempo”, Cultura Editores), “sem magoar”.

Isso porque se, só para trabalhar uma hipótese radical, resolvêssemos responder a tudo com um não peremptório, em pouco tempo não nos pediriam mais nada e deixaríamos de ter “demanda”. Todo “não” dito fecha uma porta e, se não cuidarmos, em pouco tempo não restará mais nenhuma porta aberta. Ficaremos cheios de tempo mas sem ter nada de relevante para fazer. Isso é fundamental para quem presta algum tipo de serviço.

Luiz Carlos Martins no livro “Assertividade - A Arte de ser Objetivo” (Editora Suma Econômica), sugere:

“Você pode ser sincero usando a imaginação. Use recursos de linguagem que lhe permitam dizer não da forma mais prudente possível. O tom da voz, a tranqüilidade e a exposição clara dos seus motivos podem minimizar o problema.”

Luiz Carlos Martins

Nesse empenho, duas coisas são fundamentais: (1) não inventar nenhum motivo mirabolante (é preferível dizer, com jeito, a verdade, ainda que não seja preciso entrar em demasiados detalhes); (2) sempre que possível, oferecer uma alternativa ao solicitante (orientar sobre como fazer; recomendar a procura de outra pessoa mais capacitada e/ou com mais disponibilidade etc.).

Com jeito, dizer “não” sem causar estragos passa a ser uma questão de tempo e de treino. As pessoas vão se acostumando a selecionar seus pedidos, como destaca Elaine St. James, autora do livro “Simplify your Life: 100 Ways to Slow Down and Enjoy the Things that Really Matter”:

“…quanto mais freqüentemente você disser não, mais fácil se tornará. E, quanto mais você disser não, menos freqüentemente você será o primeiro a ser requisitado.”

Elaine St. James

Para Servan-Schreiber, a maioria das causas da má administração do tempo decorre de apenas duas incapacidades: (1) a de dizer “não” (que permite a invasão de visitantes, telefonemas longos, saídas inúteis, tarefas dispensáveis, cansaço); e (2) a de delegar tarefas (realizáveis por outros, muitas vezes, até, melhor). St. James faz uma citação ilustrativa:

“O homem verdadeiramente livre é aquele que pode declinar um convite para jantar sem ter que dar uma desculpa.”

Jules Renard, dramaturgo

E sem deixar magoado(a) quem convidou.

Número 456 - 10 de novembro de 2003

Precisamos aprender a dizer não
àqueles que nos roubam a dignidade

Os recentes casos de investigação de juizes, desembargadores e ministros de tribunais superiores por venda de sentenças são avanços indispensáveis à democracia no Brasil

 

Estava pautado para este número do Gestão Hoje a continuação do número anterior (ver 455): como dizer “não”, sem “fechar portas”. Todavia, a ocorrência de um fato novo, o desbaratamento de um esquema criminoso envolvendo um grupo de integrantes da Justiça e da Polícia Federal em São Paulo, impôs-se, provocando a mudança de pauta.

O grupo, formado por três juizes federais, dois delegados e um agente da Polícia Federal, além de advogados e empresários, é acusado de formação de quadrilha para a venda de sentenças favoráveis a marginais, tráfico de influência e falsificação de documentos. Um juiz e os policiais federais foram presos e os outros estão indiciados.

A importância deste fato deve-se ao que a revista Veja chama, no preciso editorial desta semana, de “contundência das evidências reunidas” e à importância da ação investigativa para o avanço da democracia no país.

“… a sociedade brasileira colocou na mira nos últimos anos tanto o Executivo quanto o Legislativo. Com a destituição de Fernando Collor, em 1992, o Poder Executivo sentiu a força do repúdio popular ao comportamento pouco ético dos governantes. Na mesma década, escândalos depurativos sacudiram o Legislativo. Os integrantes do Judiciário, porém, continuaram a viver numa espécie de mundo à parte, alheios às críticas e sentindo-se imunes aos mecanismos punitivos a que se sujeitam os demais brasileiros.”

Carta ao Leitor, revista Veja, 12.11.2003

Coincidentemente, a Folha de S. Paulo deste domingo publica uma reportagem sobre a apuração de um esquema de “corretagem de sentenças”, em valores que variam de R$ de 70 mil a R$ 300 mil, de que são acusados seis desembargadores da ativa e um aposentado do Tribunal de Justiça do Mato Grosso.

Além disso, está em curso, já há algum tempo, uma investigação sobre possível conduta criminosa similar (venda de sentenças) de ministros da ativa e aposentados do STJ.

Esses casos constituem exemplos de uma conduta mais madura da sociedade e um avanço na direção de um país mais civilizado. Na revista IstoÉ desta semana, a propósito do fato, é citada uma frase do advogado Clóvis Ramalhete, autor do projeto que garantiu a ampla anistia de 1979, muito bem ilustrativa da gravidade da situação:

“A democracia só estará consolidada quando juizes, banqueiros e funcionários públicos corruptos começarem a se sentar no banco dos réus e ressarcir o patrimônio público.”

Clovis Ramalhete, jurista, IstoÉ, 12.11.2003

O juiz estadual do Rio de Janeiro, Lafredo Lisboa, com a autoridade de quem acaba de condenar 22 acusados de corrupção (fiscais estaduais, auditores federais e empresários, todos envolvidos no escândalo do “propinoduto”), dentre os quais o famoso Silveirinha, identifica avanços importantes:

“Há um fenômeno novo de indignação generalizada com o uso da coisa pública para fins pessoais. (…) A sociedade não aceita mais situações consumadas que beneficiam a impunidade e afrontam a ética.”

Lafredo Lisboa, juiz carioca, IstoÉ, 12.11.2003

Nenhum país do mundo chegou à democracia e ao desenvolvimento (e permaneceu neles) sem construir e consolidar uma Justiça capaz de fazer justiça e, portanto, que esteja, em sua essência, acima de qualquer suspeita.

Tanto quanto, individualmente, precisamos aprender a dizer “não” a quem nos rouba o tempo, a sociedade brasileira precisa aprender a dizer um “não” contundente àqueles que nos roubam a dignidade de cidadãos.

Número 455 - 03 de novembro de 2003

Não deu tempo, não dei prioridade ou
disse “sim” quando deveria dizer “não”?

Os atrasos que vemos disseminados em todo lugar são decorrentes de uma cultura de utilização do tempo dos outros por falta de priorização e de dizer "não" às solicitações descabidas

 

Nos últimos tempos têm aparecido na imprensa relatos de casos de atraso de autoridades do governo que têm gerado constrangimentos públicos.

Um mais rumoroso foi o protagonizado pelo ministro da Casa Civil, José Dirceu, que deixou o deputado Fernando Gabeira esperando por mais de uma hora depois do horário marcado. O deputado foi embora sem ser atendido e deu uma entrevista irada, falando de desrespeito e usando o episódio para justificar a precipitação de sua saída do PT.

Outros, mais recente, foi o relatado pelo jornalista Elio Gapari, em sua coluna deste domingo: o presidente da Câmara Federal, deputado João Paulo Cunha, viajou a Nova York para uma solenidade na ONU, atrasou-se e, quando chegou encontrou o plenário vazio. O evento já havia terminado. Além disso, Gaspari relata diversos casos recentes de atraso do próprio presidente Lula em audiências e solenidades. Alguns de mais de duas horas.

José Júlio Senna no seu excelente livro “Os Parceiros do Rei: Herança Cultural e Desenvolvimento Econômico no Brasil” (TopBooks, Rio de Janeiro, 1995), faz uma comparação interessante:

“… nós, brasileiros, somos merecidamente conhecidos como impontuais incorrigíveis. (…) vale registrar o respeito que os americanos em geral dispensam ao tempo das outras pessoas. Quem ainda não os ouviu agradecendo com a expressão ‘thank you for your time(…)? O your time é uma lembrança de que o tempo é da pessoa, e poderia ser aplicado de outra maneira.”

José Júlio Senna, economista , ex-diretor do BC

De fato, esses atrasos que vemos disseminados em todas as atividades e situações, das reuniões políticas aos consultórios médicos, são mais do que um simples cacoete cultural, são a disponibilização de um tempo que não pertence ao atrasado mas aos outros que esperam por ele, uma espécie de “apropriação indébita”, poder-se-ia dizer.

Por que isso ocorre, afinal? Várias hipóteses podem ser levantadas, mas a prática tem demonstrado que, quando se analisa a questão caso a caso, chega-se a uma constatação inevitável: os atrasos acontecem porque as pessoas abarrotam suas agendas de compromissos, sem definir as necessárias prioridades, não raro dedicando menos tempo do que seria necessário para dar conta dos compromissos assumidos, e/ou têm muita dificuldade de colocar limites às demandas dos outros.

Portanto, para não desperdiçar o tempo que não nos pertence, é preciso priorizar os compromissos, dar a dimensão necessária para eles e, sempre que preciso, dizer não.

“Levei anos e anos para aprender a dizer não, mas aprendi. Agora o ‘não’ sai com a maior facilidade, sem qualquer inibição ou constrangimento. Fulano, um espertalhão que conheço desde o começo dos tempos, e a quem já concedi, complacentemente, milhares de ’sins’, me telefona: - Você poderia… Antes que ele continue, brado: - NÃO!”

Joel Silveira, jornalista

Nem todo mundo, todavia, pode (e nem deve) imitar Joel Silveira. Primeiro, por conta da língua ferina que lhe valeu o apelido de “víbora” dado por, ninguém menos, que Assis Chateaubriand. Segundo, por conta do desconto da idade (ele já tem mais de 80 anos) e, como todo mundo que chega a esse estágio da existência, por ter uma certa autorização para dizer praticamente o que quiser.

Considerando que cada “não” dito fecha uma porta, como, então, dizer os necessários “não” sem que, com isso, venhamos a ficar isolados e sem “demandas” por conta de nossa “intransigência”? É uma pergunta cuja resposta, infelizmente, só cabe em outro Gestão Hoje.

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