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Número 441 - 28 de julho de 2003

Sem crescimento econômico não há
saída para o país nem para o governo

O Brasil avançou no desenvolvimento humano mas, ainda, apresenta um quadro social que só poderá mudar substancialmente se o governo conseguir voltar a ativar o crescimento econômico

 

Recentemente o Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) divulgou o IDH (?ndice de Desenvolvimento Humano) de 2003, com uma boa notícia: o Brasil subiu da posição 69 para a posição 65 no ranking de 175 países. Os progressos brasileiros deveram-se a melhorias na educação, na expectativa de vida e na igualdade entre os sexos.

“O Brasil foi o país que mais avançou no ranking do Desenvolvimento Humano, desde quando o índice que tenta medir a qualidade de vida no planeta começou a ser aferido em 1975. Até 2001, base da lista divulgada em 2003, o país saltou 16 posições.”

José Paulo Kupfer, revista Forbes Brasil, 18.07.2003

Apesar desses avanços, todavia, o país ainda ficou muito a dever em termos de renda per capita e distribuição de renda: 10% da população ainda vive com menos de US$ 1 por dia (cerca de R$ 90,00 por mês) e o Brasil é o país onde há a quinta pior distribuição de renda do mundo, ficando atrás, apenas, da Naníbia, de Botsuana, da República Centro-Africana e da Suazilândia. Diante dessa situação, o representante do Pnud no Brasil fez a seguinte comparação:

“Em termos aproximados, há uma Moçambique dentro do Brasil, com os mesmos índices de IDH e de indigência.”

Carlos Lopes, Folha de S. Paulo, 09.07.2003

Ao se considerar que o indicador geral do IDH do Brasil é 0,777, enquanto o de Moçambique (número 170 da lista) é 0,356, tem-se uma idéia aproximada da disparidade que está entranhada na nossa sociedade.

É, justamente, nesse ponto que a coisa se complica, e muito, porque não há como mudar essa realidade, por mais bem intencionado e socialmente responsável que seja o governo, sem crescimento econômico sustentado ao longo, pelo menos, de uma década inteira. E há, pelo menos, duas décadas que o país não sabe o que é crescimento sustentado.Todos os governos passados foram incompetentes nesse objetivo. E o atual, se não tomar muito cuidado, pode trilhar o mesmo caminho. Menos, agora no início, por sua própria responsabilidade e mais por conta da crise recebida de herança. Todavia, primeiro os eleitores e, depois, a História não vão querer saber as razões, vão só registrar que o governo Lula falhou, também, se o país não voltar a crescer.

Para que haja verdadeiro desenvolvimento humano, há que haver, também, desenvolvimento econômico. Ou seja, incorporação de consumidores ao mercado.

“Poderíamos ter 100 milhões de pessoas no consumo de massa, mas só temos metade disso.”

Horácio Piva, presidente da Fiesp, Veja, 03.04.2002

Hoje, um objetivo como este, uma verdadeira meta de desenvolvimento humano, porque econômico e conseqüente, está muito distante. Só do ano passado para cá, por conta da escalada inflacionária sem reposição de perdas, houve uma queda do poder aquisitivo da ordem de 15%. Uma enormidade que faz as vendas despencarem, a produção industrial cair, o desemprego bater recordes históricos e a recessão se instalar.

Hoje, já são os economistas simpatizantes do PT que começam a alertar para o risco que o governo Lula passa a correr, daqui para a frente, como fez Paulo Nogueira Batista Jr., na Folha de S. Paulo, a semana passada:

“Se a recuperação da economia demorar ou vier fraca, como no governo FHC, bye-bye PT .”

Paulo Nogueira Batista Jr., 24.07.2003

Depois que a situação de crise se acalmou um pouco, a cobrança de todos ao governo é: crescimento já. Sob pena de a situação social sair do controle.

Número 440 - 21 de julho de 2003

Apesar da força do design, ainda
lhe devemos uma cara mais brasileira

Vivendo sob a influência poderosa do design, passa-nos sem ser percebido o fato de que uma parte considerável do que nos rodeia é de origem estrangeira e, não, brasileira como deveria

 

O tema da versão anterior do Gestão Hoje (a onipresença do design na nossa vida cotidiana), suscitou vários comentários de leitores, dentre os quais destaca-se, por oportuno ao aprofundamento da questão, o feito por Marco Antônio Vieira Souto, consultor em comunicação:

“A grande maioria do ‘design de produto’ que nos rodeia é de autoria internacional. São raros os exemplos de empresas nacionais que investem na contratação de designers para desenvolvimento de peças próprias.”

Marco Antonio Vieira Souto, Rio de Janeiro, 15.07.2003

De fato, na esteira da globalização econômica presenciamos uma espécie de globalização “estética” que nos disponibiliza um design vindo de outros países, sobretudo dos EUA, incorporados aos produtos que, de forma real e/ou virtual, importamos.

Se, por um lado, essa atitude denota acomodação, por outro, pensando com mais cuidado, deixa exposta uma espécie de complexo de inferioridade, como se o que vem de fora, principalmente dos EUA, fosse melhor do que é feito aqui. Domenico De Masi, o sociólogo italiano que trata do tema e, em 2002, assessorou o Sebrae na elaboração da pesquisa “Cara Brasileira”, é bem direto em relação ao tema:

“O Brasil pode ser atrasado do lado econômico, mas não culturalmente. Os Estados Unidos não têm literatura, música, filosofia ou antropologia melhores que as brasileiras.”

Domenico De Masi, Gazeta Mercantil, 02.06.2003

E são, justamente, esses aspectos culturais, que no Brasil apresentam-se absolutamente originais, a fonte mais propícia que pode existir para um design de qualidade.

“Sensualidade, receptividade, saudade, alegria, cor, musicalidade são valores importantes para a vida humana e o Brasil tem abundância destes valores que os países industrializados como os Estados Unidos infelizmente perderam.”

Domenico De Masi

Com esses requisitos importantes e abundantes, tiramos deles muito menos partido do que poderíamos, embora, a bem da verdade, devamos reconhecer que a coisa já foi pior.

Hoje, já temos uma capacidade instalada considerável, em termos de profissionais do design, bem como uma produção de boa qualidade, ainda que insuficiente.

No mundo globalizado onde impera a poderosa influência do design, temos condições e precisamos nos posicionar como produtores e criadores originais em muitos campos como já fazemos, por exemplo, na moda, na propaganda, no mobiliário, na arquitetura. Com a consciência sempre presente de que a dimensão estética é uma das dimensões relevantes do desenvolvimento, como muito bem registra o nosso grande economista e pensador Celso Furtado:

“… estudar o desenvolvimento é estudar esses três vetores: o avanço dos valores técnicos, éticos e estéticos…”

Celso Furtado, revista Reportagem, outubro/1999

Técnica, ética e estética essas que devemos conformar com nossa própria dimensão, sem sentimentos de inferioridade mas, pelo contrário, com a certeza de que temos reserva suficiente para dar-lhes uma cara própria, uma cara mais brasileira.

 

Registro

O Gestão Hoje agradece aos leitores que entraram em contato parabenizando pelo novo design do informativo.

E, por oportuno, registra, em razão de não tê-lo feito no número anterior, que a criação e a produção da nova versão e-mail, assim como o site é, também, da Cartello.

Número 439 - 14 de julho de 2003

Vivemos hoje em dia sob a
poderosa influência do design

O Gestão Hoje, imbuído do espírito contemporâneo de valorização da estética e do design, renova o seu visual com o objetivo de oferecer um produto mais atraente aos seus leitores

 

Uma das características mais marcantes da vida moderna é a onipresença do design em praticamente todos os objetos que estão à nossa volta.

Simon de Boer, arquiteto de interiores e estilista holandês, em visita recente que fez ao Brasil, deixou registrado esse sentimento:

“Tudo é design. Não só um móvel, um interior, uma xícara, calça, jaqueta ou bolsa, mas também a própria vida, inclusive a moral.?

Simon de Boer, Gazeta Mercantil, 14.03.2003

O exagero de estender o design para a vida e a moral pode-se perdoar como um recurso para evidenciar sua importância. Faça um teste, olhe à sua volta e tente identificar um objeto, qualquer um mesmo, que não tenha sido resultante de “estilismo”, de um projeto de design. É difícil.

Sem design, o produto perde competitividade frente aos concorrentes melhor cuidados do ponto de vista estético. Um bom exemplo disso é dado na revista Pequenas Empresas, Grandes Negócios pela estilista da loja de sapatos femininos Les Gazelles, de São Paulo:

“Sem desenho próprio eu não poderia vender meu sapato por R$ 180, quando ali na esquina tem um outro que custa R$ 90.?

Meline Moumdjian, revista PEGN, outubro/2002

Mesmo custando o dobro, quem pode compra o produto que tem estilo próprio, que tem design incorporado, consentindo em pagar um prêmio especial por isso. Ao proceder assim, o consumidor está, apenas, seguindo a tendência do mundo esteticamente globalizado. E o mundo globalizado é o mundo do design.

As estimativas são de que, hoje em dia, já se gaste mais com design do que com propaganda. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que 65% das empresas de pequeno porte pesquisadas ampliaram as vendas após submeterem suas embalagens a processos de melhoria do design.

A questão é séria porque, por melhor que seja o produto, se não tiver um padrão mínimo de design incorporado e, mais ainda, se isso não estiver visível logo na embalagem, ele passará sem ser percebido pelo consumidor, como destaca Neuza Armstrong, da Écologie Cosméticos:

“O consumidor julga o produto pelo que vê. E os olhos enxergam primeiro a embalagem.?

Neuza Armstrong, revista PEGN, outubro/2002

A razão porque isso ocorre parece estar relacionada à globalização de valores, dentre os quais se destaca a estética, como indica Domenico De Masi, o criador do conceito do “ócio criativo”:

“…hoje nos damos conta de que as empresas não progridem sem idéias, e que isso requer fantasia, subjetividade, estética e emotividade. É como se, de repente, o petróleo fosse importante, e descobríssemos que você tem petróleo e eu não. O petróleo da era pós-industrial será criatividade, estética, emotividade, subjetividade.?

Domenico De Masi, revista Você S/A, março/1999

Dentro do espírito contemporâneo, o Gestão Hoje, além de zelar pelo conteúdo atual de suas edições, tem, também, desde sua criação há quase dez anos, se preocupado com a forma e a evolução do seu modo de apresentação, visando a torná-lo, sempre, atraente para o leitor.

Imbuídos do espírito de renovação, inauguramos, portanto, com o presente número, um novo layout, tanto do modo fax quanto do e-mail, incluindo o site, também renovado. A criação é da designer Neide Câmara e a artefinalização básica da designer Sílvia Guimarães. O site é produção da Cartello.

Número 438 - 07 de julho de 2003

Porque a nova reforma da
Previdência é importante para o país

A reforma da Previdência encaminhada pelo governo ao Congresso, apesar de polêmica e importante para o país não resolverá o problema e demandará, no futuro, outra complementar

 

Diferentemente da Reforma Tributária, proposta pelo governo, que não só não resolve a questão da injusta carga tributária do Brasil como ainda provocará o seu aumento, a Reforma da Previdência vai um pouco mais além, ao encontro das reais necessidades do país.

Dar um jeito nas contas da Previdência é um imperativo nacional, como muito bem caracteriza o professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, José Pastore, uma das maiores autoridades na área trabalhista e previdenciária no Brasil:

“O modelo previdenciário faliu (…) Recolhidas as contribuições, o governo só conseguirá honrar os benefícios dos aposentados se arrumar mais 70 bilhões de reais.?

José Pastore, sociólogo, Veja, 11.12.2002

Para se ter uma idéia da dimensão desse montante, como bem destaca a revista Exame, todo o orçamento anual federal destinado à educação é de R$ 18 bilhões e os recursos totais do programa social carro-chefe do governo Lula, o Fome Zero, são da ordem de R$ 2,5 bilhões.

Trata-se de um verdadeiro ralo pelo qual escoam recursos fundamentais para o investimento público necessário ao enfrentamento das enormes carências sociais e de infra-estrutura do país, como muito bem caracteriza Raul Velloso, especialista nas contas públicas brasileiras:

“Sem uma reforma da Previdência, o Brasil permanecerá com uma conta em aberto que poderá inviabilizar o estado.?

Raul Velloso, economista, Exame, 15.01.2003

Os valores do déficit assustam sobretudo porque já houve uma reforma em 1998, patrocinada pelo governo Fernando Henrique Cardoso, que, apesar de tímida, evitou, com toda certeza, que a situação ficasse ainda pior.

A questão é tão séria quanto polêmica uma vez que envolve toda uma sorte de distorções, privilégios, injustiças, falsas percepções e tendências populacionais, todos gerados ao longo da nossa atribulada história.

Participante da tendência mundial de aumento da expectativa de vida, o Brasil, como boa parte dos países onde existe funcionando sistemas de previdência,  encontra-se em meio ao que se poderia chamar de “encruzilhada atuarial”. O novo ministro da Previdência explicita com muita clareza esse dilema:

“Há 40 anos o país tinha sete trabalhadores para cada aposentado. Hoje a relação é de um e meio para um no INSS e de um para um no setor público.?

Ricardo Berzoini, ministro, Exame 15.01.2003

A estimativa é de que, hoje, os aposentados representem 13% da população brasileira e, se nada for feito em termos de ajuste da legislação, esta parcela chegará a 25% em 40 anos. Sem um sistema de financiamento ajustado, o país fica  inviável.

Consciente do tamanho do problema, o governo Lula em boa hora tomou a iniciativa de, em acordo com os governadores, enviar uma proposta ao Congresso Nacional. Apesar de polêmica, em virtude dos dispositivos que preconiza, a proposta é, ainda, tímida à vista do que é necessário para dar um equacionamento definitivo ao problema.

As principais contestações que tem sofrido dizem respeito às proposições relativas ao funcionalismo público que se manifesta contra, a começar pelo próprio presidente do Poder Judiciário.

Temos que esperar para ver no que dá porque essa reforma, mesmo se for aprovada na íntegra, ainda necessitará de uma terceira capaz de dar uma solução definitiva para o problema que é, hoje, de fato, um entrave significativo ao desenvolvimento.

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