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Número 428 - 28 de abril de 2003

Algumas lições empresariais
da estratégia dos EUA no Iraque

Componentes da estratégia militar adotada pelos EUA no Iraque podem ser observados, guardadas as necessárias proporções, para efeito de comparação com a estratégia empresarial

 

A observação atenta do que ocorreu, do ponto de vista da estratégia militar, na guerra do Iraque, quando se consegue abstrair os aspectos hediondos do conflito, fornece algumas lições importantes para a estratégia empresarial.

O parentesco entre as estratégias militar e empresarial é de nascença e a origem da primeira se perde na noite dos tempos. Desde que o homem assumiu sua condição de ser social sobre a face da Terra que passou a disputar com grupos rivais o domínio sobre determinados territórios. E fez isso, predominantemente, pela luta armada, travada com auxílio de artefatos que foram desde paus e pedras até mísseis teleguiados por satélite. Na Grécia e na China antigas, o conhecimento sobre a guerra ganhou status de disciplina. Da Grécia herdamos a origem da palavra estratégia (do grego strategía, arte do general) e da China o mais antigo tratado militar conhecido sobre o tema (”Arte da Guerra”, do século 4 antes de Cristo).

O próprio processo de formulação da estratégia empresarial, na forma como o conhecemos e praticamos hoje, é uma disciplina surgida após a Segunda Guerra Mundial, na década de 50 do Século 20. Depois do enorme sucesso norte-americano no conflito, baseado num esforço de guerra planejado com obstinação e arrojo, estudiosos da nascente ciência da administração forjaram as bases do planejamento estratégico empresarial. Nessa abordagem, o “campo de batalha” passa a ser o mercado, as “armas” os produtos, o “inimigo” o concorrente e o “objetivo” a ser conquistado, a preferência do cliente.

Sob essa ótica é que se pode aproveitar a oportunidade para tentar observar o que, do ponto de vista estritamente militar da ação vitoriosa norte-americana, é aplicável à moderna estratégia empresarial.

Os principais fatores que levaram à fulminante vitória dos EUA foram os seguintes:

1.Tecnologia Avançada

Foram empregados os mais modernos equipamentos e a mais apurada tecnologia bélica do planeta.

2.Vantagem Competitiva

Os EUA usaram de forma avassaladora a sua mais evidente vantagem competitiva sobre o oponente: o poderio aéreo. Sua aviação debilitou a tal ponto as defesas do Iraque que a tomada de Bagdá se deu com um contingente terrestre irrisório porque a resistência estava completamente destroçada.

3.Rapidez da Ação

A ação militar invasora chegou ao seu objetivo (a derrubada do regime) em três breves semanas, contando o atrapalho inicial decorrente da subestimação da reação do inimigo. Os estrategistas militares sabiam que não podiam perder tempo dada a grande oposição que a intransigente postura norte-americana provocou na comunidade internacional.

4.Profissionalismo

Todo o contingente das forças armadas norte-americanas que atuou no Iraque foi composto por soldados e oficias profissionais, treinados exaustivamente para a tarefa que foram desempenhar.

5.Logística Eficiente

Para cada carro de combate, dizem os especialistas, foram necessários cinco outros veículos de apoio e para cada combatente, quatro outros militares de suporte. Deslocar esse contingente dentro de um país estranho, pelo meio do deserto, requereu muita organização e preparo.

Comparativamente, pode-se dizer que terá maior sucesso em sua estratégia a empresa que conseguir, na sua atuação de mercado, usar a mais apurada tecnologia disponível, fazer uso intensivo da sua principal vantagem competitiva, ter rapidez na ação, atuar com o maior profissionalismo possível e possuir uma logística eficiente. E o melhor de tudo: sem precisar dar um tiro sequer. Porém, com uma diferença fundamental: a ética. Mas isso já é matéria para um outro Gestão Hoje

Número 427 - 21 de abril de 2003

O Brasil “sai” da guerra
bem melhor do que entrou

Contrariando as previsões iniciais, os principais indicadores macroeconômicos do Brasil apresentam, pós guerra do Iraque, boa melhora, embora recomendem, ainda, muita cautela

 

Terminada a guerra do Iraque e completados os primeiros 100 dias, o governo Lula dá a impressão de que saiu melhor do que entrou, tanto da guerra quanto da prova de fogo econômica a que se viu submetido quando da transição do poder no início do ano.

Na prática, o que aconteceu foi que o país, contrariando as projeções de antes do início da guerra, voltou a receber dinheiro de fora, quebrando o jejum iniciado no início do segundo semestre de 2002 quando alastrou-se na comunidade financeira internacional a suspeita, logo transformada em pânico pelo oportunismo, de que a oposição poderia ganhar a eleição e incluir o Brasil no “eixo do mal” latino-americano, junto com Cuba e Venezuela.

Os resultados foram o aumento do chamado risco-país do Brasil (que chegou à marca dos 2.500 pontos, abaixo apenas do da Argentina), a maior restrição de crédito externo da história do país (nem as linhas de curto prazo de financiamento das exportações foram renovadas) e a maxi-desvalorização do real em relação ao dólar (de mais de 50%, fazendo a moeda norte-americana chegar a ser cotada a R$ 4,00).

Com o dólar nas alturas, a inflação ameaçou sair do controle e os índices de preço ao consumidor ultrapassaram os 10%, enquanto os de preço no atacado ultrapassaram os 20% ao ano, arriscando jogar por terra todo o esforço de estabilização levado a efeito nos anos anteriores.

Agora, no mês de abril, a situação econômica, retratada por esses índices, reverteu-se de modo significativo. Retornaram as captações externas feitas por empresas, o risco-país caiu abaixo dos 900 pontos e o dólar voltou a ser cotado na casa dos R$ 3,00, numa tendência rumo à situação pré-histeria.

O que parece estar acontecendo é a convergência de alguns fatores que, inter-influenciados, ajudaram a instalar o quadro atual mais favorável.

Em primeiro lugar, o bom senso do governo Lula de, pelo menos no início, manter os acordos firmados pelo governo anterior em relação à política econômica como é o caso do superávit primário das contas públicas (que foi, inclusive, ampliado pelo governo atual), do sistema de metas de inflação e do câmbio flutuante. Além disso, avançou nas negociações sobre as reformas da previdência e tributária. Essa postura responsável em muito contribuiu para a consolidação da percepção externa de que o novo governo não iria cometer nenhuma das loucuras que, por ignorância e/ou maldade, lhe haviam antecipado.

Desfeita essa desconfiança inicial, dois outros fatores contribuíram para a retomada dos fluxos financeiros interrompidos no segundo semestre de 2002: as atraentes taxas internas de juros e a confirmação da solução “rápida” para a guerra movida pelos EUA contra o Iraque. Vale a pena lembrar que a nossa taxa básica de juros real (descontada a inflação) deve estar em torno de 15% ao ano, contra uma taxa básica norte-americana praticamente negativa.

Com os fluxos retomados, o dólar desvalorizou-se. Afinal, na condição de uma mercadoria como outra qualquer, o dólar está sujeito à velha lei da oferta e da procura (maior a abundância, menor o preço e vice-versa). O receio agora é que a desvalorização excessiva comprometa as exportações e, por conseguinte, o balanço de pagamentos.

O cuidado que se deve ter com toda essa nova onda de notícias “positivas” é em relação ao otimismo exagerado que ela pode provocar. A situação externa do país permanece demasiadamente vulnerável e, portanto, muitíssimo suscetível às oscilações e aos humores do mercado. Quando eles são bons, reagimos mais ou menos bem, quando eles são maus, reagimos muito mal.

Essa maré de bons fluidos pode muito bem ser substituída por outra de fluidos bem ruins se algum fato relevante negativo surgir inesperadamente. Vamos ficar todos torcendo para que não surja tão cedo.

Número 426 - 14 de abril de 2003

Com o fim do jogo de guerra,
os falcões é que vão ditar as regras

Derrubado o regime de Saddam Hussein, os EUA consolidam sua presença no Oriente Médio, enquanto cuidam da reconstrução do Iraque comandada pelos "falcões" do governo George W. Bush

 

Última autoridade a falar pelo recém-deposto regime de Saddam Hussein, na quarta-feira 09.04.2003, o embaixador do Iraque na ONU foi tão lacônico quanto preciso diante dos microfones das emissoras de TV em Nova York:

“The game is over.?

Mohammed Al-Douri, embaixador iraquiano na ONU

A precisão está, justamente, na definição dessa guerra como um jogo, bruto e irresponsável, mas um jogo. De um lado, a irresponsabilidade arrogante com um cacife militar inesgotável. Do outro, a irresponsabilidade blefadora de quem não tinha sequer um mísera carta na manga.

A vitória significa mudança completa da geopolítica local, com um novo enclave norte-americano na região. Por sinal, uma dado curioso e revelador: o exército dos EUA é, hoje, o único que é dividido não por regiões internas mas por regiões externas ao seu território, com bases instaladas pelo mundo todo: Europa, ?sia, América Latina e, agora, Oriente Médio. Não é à toa que o orçamento militar norte-americano, sozinho, representa mais da metade dos gastos militares do planeta (para uma população equivalente a 5% da mundial e uma economia que representa 30% da economia do globo).

Além disso, e o que parece mais preocupante, o resultado da guerra significa, também, a ampla vitória da tese central (”Choque e Pavor”) da nova doutrina norteadora da política externa norte-americana. Talvez a mais conservadora e declaradamente intervencionista desde a famosa big stick do presidente Theodore Roosevelt (1858-1919). Seus expoentes no atual governo são Dick Cheney (vice-presidente), Donald Rumsfeld (secretário de Defesa), Paul Wolfowitz (subsecretário de Defesa) e Condoleezza Rice (assessora de Segurança Nacional).

Trata-se de um time da pesada, sintomaticamente chamado de “os falcões”, que nunca fez segredo das sua idéias, trabalhou no governo George Bush pai, e encontrou terreno mais do que fértil, depois do 11 de setembro, para consolidar sua influência no governo George Bush filho, colocando para escanteio a turma mais moderada do Departamento de Estado, comandada pelo general Colin Powell.

Do ponto de vista exclusivamente militar, a vitória anglo-americana foi notável. Movida pela rapidez impressionante da ação no teatro de operações, a tecnologia e o poderio aéreo avassalador apoiaram um contingente terrestre relativamente pequeno: menos de 100 mil combatentes (contra uma força estimada de 350 mil soldados iraquianos). Desse total, apenas uma pequena parcela foi responsável pela queda de Bagdá (uma cidade de mais de 5 milhões de habitantes).

Depois dos erros iniciais cometidos (menos gente do que o necessário no campo, longas e delgadas linhas de suprimento, excesso de expectativas quanto à adesão inicial da população), que levou a perdas não esperadas, o estado maior norte-americano refez seu plano de guerra e promoveu o ajuste vitorioso. A tomada de Bagdá foi feita com um contingente tão pequeno que está  sendo incapaz de conter a onda de anarquia e saques instalada na cidade. Aliás, a manutenção da ordem pública pós-guerra é uma responsabilidade da “potência dominante”, segundo a convenção de  Genebra que regula o assunto.

Após o êxito militar indiscutível, são os “falcões” que, sobrevoando o terreno conquistado, vão comandar a “reconstrução” do Iraque e a reforma da governança  internacional, seriamente abalada pelo atropelo que sofreu o Conselho de Segurança da ONU.

O que vai acontecer não se sabe. Apesar das ameaças já feitas pelos EUA aos demais países componentes do “eixo do mal” (Síria, Irã e Coréia do Norte), o que dá para antecipar é, pelo menos por enquanto, uma trégua no ânimo beligerante do governo Bush. Afinal, as eleições estão próximas e não é prudente arriscar-se em novos e incertos jogos de guerra, pelo menos até que a reeleição esteja garantida.

Número 425 - 07 de abril de 2003

EUA e Grã-Bretanha enfrentam
o “general tempo? contra a derrota moral

Depois de promoverem uma impressionante escalada pelo deserto de mais de 100 km por dia, as forças invasoras do Iraque lutam contra um inimigo implacável: o tempo curto para vencer

 

Pela aceleração que se verifica na marcha das tropas norte-americanas em sua escalada no Iraque e mais notadamente sobre Bagdá, a impressão que se tem é de uma grande corrida contra o tempo.

Napoleão, um dos grandes estrategistas da história militar, além de um administrador notável em sua época, refere-se à questão do tempo na guerra de modo muito interessante:

“A estratégia é a ciência do emprego do tempo e do espaço. Sou menos avaro com o espaço do que com o tempo. O espaço podemos reganhá-lo. O tempo perdido jamais.”

Napoleão Bonaparte, 1769-1821, imperador francês

Ele próprio sentiu na pele a gravidade de sua frase com a derrota na frente russa para aquele que se convencionou chamar de “general inverno” (derrota que, inclusive, abriu-lhe a guarda para a posterior deposição, o ostracismo e a morte). Falhas de planejamento e uma resistência do inimigo não prevista deixaram o exército francês, a despeito de sua conquista de Moscou, sem suprimentos, à mercê do rigorosíssimo inverno russo. Resultado: dos 655 mil soldados levados ao front, só 85 mil retornaram depois de um ano de campanha, em 1812.

O impressionante é que, pouco mais de um século depois, Adolf Hitler caiu nessa mesma armadilha, o que provocou a contra-ofensiva russa que só parou com a dominação de Berlim e a morte do líder nazista.

No Iraque a pressa se dá por medo de um outro general: o “general deserto”.  Com a chegada do verão na região do conflito, a temperatura de 40 graus à sombra constitui-se num poderoso tormento para as forças de ocupação com roupas espessas e equipamento pesado.

Impulsionadas pela doutrina “Choque e Pavor”, posta em prática pelo secretário de Defesa Donald Rumsfeld (dominação rápida com limitado contingente terrestre e forte apoio aéreo), as tropas de ocupação fizeram, no mero espaço de quatro dias, um impressionante avanço de 400 km, deserto a dentro, até as portas de Bagdá. Pela pressa, cometeram erros iniciais importantes, mas refizeram os planos, também rapidamente.

“O governo Bush trabalhava com duas hipóteses iniciais que não se realizaram: a adesão da população aos ‘libertadores’ e o sucesso da chamada guerra eletrônica. Com uma realidade diferente depois dos combates, o Estado-Maior americano foi obrigado a improvisar um estratégia militar alternativa e, certamente, a pensar em um novo pós-guerra político.”

Luiz Carlos Mendonça de Barros, FSP, 04.04.2003

Uma mostra evidente, não só do poderio militar norte-americano, mas da eficácia incontestável de sua formidável máquina de guerra. A celeridade da mudança de planos e a flexibilidade de suas táticas, numa ação também de grande rapidez, com um contingente terrestre relativamente pequeno (os reforços que duplicarão a força de ocupação de 100 para 200 mil combatentes no Iraque ainda estão a caminho da região) permitiram a tomada do aeroporto de Bagdá e o bloqueio quase que completo da capital iraquiana.

Mais do que o “general deserto” outro que aflige a campanha contra Saddam Hussein é o “general tempo”. Cada dia sem o atingimento dos objetivos definidos, é uma perda de “espaço” na guerra da comunicação.

“O campo de percepção de uma guerra é mais importante que o campo de batalha propriamente dito.”

Paul Virilio, 70 anos, filósofo francês

Os EUA e seu aliado, a Grã-Bretanha, entraram numa empreitada perigosa, precipitada e arriscada. Agora, correm contra o tempo para alcançar, logo, a inevitável vitória real, antes que sobrevenha a derrota moral que a opinião pública mundial ameaça lhes infligir.

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