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Número 419 - 24 de fevereiro de 2003

Aquele que tem dois senhores é um homem livre

Se uma pessoa qualquer subordina-se, numa mesma atividade, a mais de uma liderança ela, na prática, não se subordina a ninguém

 

Desde a mais remota antigüidade, há um princípio da administração de pessoas que permanece imutável. Trata-se da unidade de comando.

Começando pelas estepes e savanas da ?frica pré-histórica, onde se deu a aurora da humanidade, transitando pelos grupos nômades de caçadores, pelas primeiras civilizações, pelas mais esclarecedoras passagens bíblicas, pelas progressiva e historicamente mais complexas organizações religiosas, militares e administrativas, até os nossos dias, em todas as situações conhecidas, sempre que a unidade de comando foi quebrada, sobreveio a desordem, a anarquia, o caos.

Isso, independente do fato de o regime de comando ser mais ou menos autoritário ou ditatorial. Unidade de comando não tem a ver com regime de governo mas, sim, com o exercício da autoridade, com o respeito à indispensável hierarquia.

De tempos em tempos circulam idéias que intentam ir de encontro a esse princípio básico. Sob o argumento de uma pretensa “democracia?, de uma hipotética “liberdade? ou qualquer outro conceito deturpado do gênero, advogam a abolição ou a descaracterização do princípio da unidade de comando, em favor de algo como “funcionamento espontâneo? ou “autogestão? de grupos de trabalho. Como se democracia ou liberdade, em suas acepções corretas, não fossem estreitamente vinculadas a autoridade e hierarquia. Como se fosse possível a existência de um grupo, qualquer que seja ele, sem liderança una.

Ainda que temporária ou exercida em rodízio num grupo de trabalho, o que é perfeitamente possível, a liderança tem que ser unitária e definida com clareza. Nem numa mera reunião de condomínio pode-se dar ao luxo de deixar indefinida a coordenação…

Peter Drucker, o longevo e impressionantemente lúcido mestre da administração, faz uma afirmação muito bem posta sobre o tema.

“Também é um princípio geral válido para organizações de todos os tipos que qualquer membro da organização deve se submeter a apenas um ’senhor’. É sábio o velho provérbio da lei romana segundo o qual um escravo que tem três senhores é um homem livre. É um princípio muito antigo das relações humanas que ninguém deve ser sujeito a um conflito de lealdades  e ter mais de um senhor gera exatamente esse tipo de conflito.”

Peter F. Drucker, guru dos gurus da Administração

Do alto de sua sabedoria, o velho mestre é até complacente. Respaldado pelo provérbio romano, fala em três senhores. A prática cotidiana tem mostrado que bastam apenas dois e o estrago já está feito. Com dois líderes, ele fatalmente colocará um contra o outro e fará o que melhor lhe convier.

Evidentemente que esse princípio milenar, dada a complexidade da realidade organizacional própria dos nossos atribulados dias, pode e deve ser flexibilizado. É possível e até desejável que, em muitos casos, as pessoas tenham mais de um ou, até, vários coordenadores para atividades diversas dentro da organização. O fundamental é que, sempre, para determinada tarefa ou atividade, a coordenação e o “comando? sejam únicos e perfeitamente definidos.

Todavia, apesar da aparente obviedade deste princípio, é simplesmente impressionante a quantidade de situações observadas no dia-a-dia das organizações em que ele é solenemente desconsiderado. O resultado, quando isso acontece é, sempre, desvio dos interesses da organização em proveito dos interesses individuais.

Esse princípio tão importante quanto antigo é uma prova evidente de que a gestão empresarial vale-se bem de conceitos simples mas eficazes, em detrimento de novidades nem sempre adequadas e modismos que são, muitas vezes, sem aderência à realidade organizacional.

Número 418 - 17 de fevereiro de 2003

Crônica de uma guerra anunciada e ruim para o Brasil

Motivada por razões políticas e econômicas, uma guerra prolongada dos EUA contra o Iraque seria muito prejudicial para a economia brasileira que já se prepara para o pior cenário

 

Uma sombra paira sobre o desempenho de curto e médio prazos do governo Lula: a guerra dos EUA e aliados contra o Iraque.

Ao promover, na semana que passou, o maior aperto fiscal da era do Real, elevando a meta de superávit primário das contas públicas de 3,75% para 4,25% do PIB, com um conseqüente contingenciamento do orçamento da ordem de R$ 14 bilhões, o governo federal já se prepara para o pior cenário da guerra.

Segundo a principal agência de classificação de crédito do planeta, a Standard & Poor’s, numa guerra rápida, as conseqüências não seriam grandes mas, numa prolongada, a solvência de países muito dependentes de financiamento externo como o Brasil e a Turquia estaria seriamente ameaçada.

“Um ataque militar ao Iraque atingirá mais o Brasil do que os países do Oriente Médio, pelo menos do ponto de vista econômico e financeiro.”

Folha de S. Paulo, 13.02.2003

Segundo a agência, se as medidas de ajuste fiscal promovidas pelo governo Lula não se traduzirem em uma queda do risco-país, fazendo-o baixar dos atuais 1.300 pontos (o que significa, na prática, pagar a proibitiva taxa de 13 pontos percentuais acima do que paga o Tesouro dos EUA nos empréstimos que o país conseguir contrair no exterior), é muito provável que, com uma guerra prolongada, o Brasil tenha que pedir socorro, mais uma vez, ao FMI.

Só para se ter uma idéia da desproporção, enquanto o risco Brasil está nesse patamar alto, tendo chegado, inclusive, próximo dos 2.500 pontos no segundo semestre de 2002, o do México está hoje na casa dos 300 pontos.

As chances efetivas de ocorrência da guerra, embora já tenham sido maiores antes da reunião do Conselho de Segurança da ONU na última sexta-feira e das enormes manifestações ocorridas em algumas das mais importantes cidades do mundo (inclusive dos EUA) neste fim de semana, ainda são bastante altas.

Tudo por conta da determinação, algo ensandecida, do presidente George W. Bush de atacar o Iraque quase a qualquer preço. Olhada à distância, essa determinação assemelha-se à intenção de preparo de um repasto cujo prato principal é político e a sobremesa econômica.

A motivação política de Bush denuncia-se diante da constatação de que antes dos atentados de 11 de setembro sua credibilidade era das mais baixas da história. Foi a guerra contra o terrorismo que emprestou-lhe estatura política de estadista. Agora, com a aproximação da disputa reeleitoral, sua lógica mental deve deixá-lo convencido de que nada como outra guerra para fortalecê-lo na disputa. Como diz a sabedoria popular: para quem só sabe manejar o martelo, tudo lhe parece prego.

Comido o prato político principal, serve-se a apetitosa sobremesa econômica. O Iraque, apesar de, por restrições decorrentes do embargo econômico a que está submetido desde a guerra do Golfo, ser apenas o 12º produtor mundial de petróleo, é detentor da segunda maior reserva de óleo do planeta, ultrapassado apenas pela Arábia Saudita. Um prato cheio de “guloseimas? para um país que importa 60% do petróleo que consome e que tem um presidente oriundo da indústria petrolífera.

O problema das guerras é que, para além das lógicas política e econômica, elas despertam forças sem controle. Como em qualquer disputa, sabe-se, numa guerra, como se começa mas não se sabe, nunca, como nem quando se termina.

Resta torcer para que a grande oposição que a intenção de George W. Bush tem despertado ao redor do mundo contribua para dissuadi-lo, e a seu estado maior, da deflagração de uma guerra que, apesar de ter sido anunciada à exaustão, pode ser evitada pela ação eficaz dos meios diplomáticos tradicionais e que já estão em plena atuação. Os brasileiros agradecem se a solução se der pela via pacífica.

Número 417 - 10 de fevereiro de 2003

Uma pequena regra de ouro:
elogios públicos, reprimendas privadas

Apesar das claras evidências de que é muito mais produtivo chamar a atenção de subordinados em particular e elogiá-los em público, são muitos os que fazem, exatamente, o contrário

 

É impressionantemente alta a quantidade de pessoas com responsabilidade de comando que fazem, justamente, o inverso do que sugere essa pequena regra de ouro da convivência humana e, em particular, da conduta organizacional. Fazem críticas severas públicas e elogios tímidos, quando o fazem, em particular.

Não sabem elas o quanto, com isso, trazem de prejuízo para as relações pessoais e para a produtividade. Criticadas severamente, muitas vezes submetidas a verdadeiras descomposturas em público, as pessoas que não reclamam na hora (que são, por sinal, a grande maioria) e se “submetem” à reprimenda, tendem a “descontar”, até inconscientemente, das formas as mais diversas, “criativas” e improdutivas possíveis.

“Chefes não criticam subordinados em público.”

Clemente Nóbrega, consultor, Exame, 21.02.2001

Quer dizer, os chefes conscientes. A não ser, claro (toda regra tem exceção!), em situações anormais, em momentos de grave comoção, em ocasiões de contestação à autoridade gerencial. Momentos em que o exemplo precisa ser dado. Mas, são casos raros. Se ocorrem com muita freqüência, são, eles próprios, sério indício de que há algo de muito errado na forma como a autoridade está sendo exercida no ambiente tormentoso.

O desejável e verdadeiramente produtivo é que de público sejam feitos os justos elogios, agradecimentos, observações positivas. De certa forma, pode-se dizer que as pessoas são “movidas” a reconhecimento e os elogios são uma forma de explicitar esse reconhecimento.

“Todo ser humano precisa ser elogiado. Senão, não se  tornará o que estava destinado a ser, nem mesmo a seus próprios olhos.”

Fabian Lagerkvist, 1891-1974, dramaturgo sueco

Mas, cuidado, o elogio tem que ser  verdadeiro e sincero. Surte efeito contrário se for falso, exagerado ou feito de má vontade. As pessoas notam e desconsideram, fazendo o “discurso” do elogiador cair no vazio e tudo virar uma encenação: elogiador e elogiado fazendo de conta que acreditam no que está sendo dito. Falsas gentilezas, falsos agradecimentos.

É tão importante o elogio que, quando bem feito, chega a deixar o destinatário indefeso como bem o destaca a frase atribuída a Freud, o pai da Psicanálise.

“Podemos nos defender de um ataque, mas somos indefesos a um elogio.”

Sigmund Freud, 1856-1939, psicanalista austríaco

Também no que diz respeito ao elogio, existem exceções. Há os que preferem ou se sentem até melhor, recebendo uma crítica do que sendo elogiado. Costumam fazer par com aqueles que só gostam de criticar, como naquela famosa piada do sádico e do masoquista (o masoquista pede: “me bate”; o sádico responde: “bato, não…”). Outros, sinceramente estóicos, preferem a crítica como forma de purificação.

“Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem.”

Santo Agostinho

A grande maioria é composta, todavia, nem de masoquistas nem de estóicos, mas de pessoas que  apreciam o reconhecimento e os aplausos sinceros, desde que feitos diretamente e, não, de modo disfarçado.

“O ouvido humano é surdo aos conselhos e agudo aos elogios.”

Shakespeare

O bom gerente ou dirigente que souber atender, de forma ética e responsável, a essa grande demanda, tem melhores chances de conquistar a confiança, o reconhecimento e a gratidão dos seus comandados. Quanto aos que praticam o inverso, resta esperar para ver no que vai dar…

Número 416 - 03 de fevereiro de 2003

O êxito inicial, a torta,
e o risco desnecessário

Na soma dos prós e contras, o presidente Lula encerra bem janeiro na expectativa da guerra contra o Iraque, correndo riscos pessoais

 

Luiz Inácio Lula da Silva conclui seu primeiro mês à frente do Governo Federal com um saldo político positivo e a maior aprovação pessoal da história (83,6%, segundo pesquisa CNT/Sensus). No plano internacional, primeiro chefe de estado a ir aos dois fóruns mundiais, o Social de Porto Alegre e o Econômico de Davos, o presidente marcou presença com discursos bem recebidos. No plano nacional, depois da insólita “caravana da miséria”, lançou, com pompa e circunstância, o programa Fome Zero.

A presença internacional do presidente Lula tem surpreendido pelo acerto. Depois da delicada incursão na crise da Venezuela, o complemento da viagem a Davos, passando pela Alemanha e pela França (países que haviam, dias antes, condenado os EUA em relação à ofensiva contra o Iraque), reforçou a sintonia do discurso contra a inevitabilidade da fome e da guerra (ainda que não dito abertamente por questões de natureza diplomática). Nesse particular, fez lembrar o notável Josué de Castro, autor do famoso livro “Geografia da Fome” e patrono de todas as iniciativas sérias ligadas ao tema no Brasil.

“Fome e guerra não obedecem a qualquer lei natural, são criações humanas.”

Josué de Castro, 1908-1973, médico pernambucano

Internamente, o governo procurou pautar-se pela fórmula exposta por Palocci aos novos e inquietos parlamentares do PT, na sexta 01.02 (”tradicionalismo” na economia, “criatividade” nas políticas de desenvolvimento e “ousadia” no comércio exterior), de olho nos desdobramentos da escalada norte-americana contra Saddan Hussein. Declarada a guerra, o Brasil sofrerá com o aumento do preço do petróleo, com a valorização do dólar e com a instabilidade internacional subseqüente.

A propósito,  guerra é o principal “fato portador de futuro” no curto prazo para o país. A melhoria consistente do quadro econômico depende da guerra não ocorrer, o que, hoje, infelizmente, é uma hipótese remota.

Além da guerra, evento completamente fora da governabilidade brasileira, há outro fator que, pelo passado recente, preocupa em relação à atitude do presidente: a teimosia em colocar sua integridade física em risco no contato direto (verdadeiro corpo a corpo) com o povo.

O recente episódio da torta de morango jogada na cara de José Genoino deve servir de alerta. E se, como disse o comentarista Franklin Martins da Globonews, em vez de uma “pasteleira sem fronteiras”, a agressora fosse uma “pedreira sem fronteiras” ou uma “bombeira sem fronteiras”?  E se no lugar de Genoino estivesse o próprio presidente da República? Que bela imagem de um presidente submetido ao ridículo teriam todas as mídias do mundo.

Nunca é demais lembrar, como o fez recentemente um observador atento, que quem matou John Lennon foi um fã. Quem atirou em Ronald Reagan foi um louco, apaixonado pela atriz Jodie Foster, para mostrar-lhe do que seria capaz pelo seu amor.

Loucos e fanáticos estão por aí à solta, espreitado todas as oportunidades que lhes dêem seus 15 minutos de fama. Quem não se lembra do famoso “beijoqueiro”? E olhe que as vítimas dele procuravam não dar bobeira nem, muito menos, ficavam criando oportunidades…

Em qualquer regime e, sobretudo, num regime presidencialista do tipo do brasileiro, o presidente da República é uma instituição cuja mera investidura no cargo transforma-o num patrimônio da nação que não pode oferecer-se ao risco por “estilo” pessoal.

É de se esperar que a inteligência incomum do presidente e sua aguçadíssima intuição façam-no reconsiderar a postura de risco que tem adotado. Seu êxito político inicial e sua excepcional aprovação popular, ainda mais reforçam a necessidade de preservação da sua integridade física. Não é justo, nem para o próprio presidente nem para o país, submeter-nos todos ao risco de estresses perfeitamente evitáveis.

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