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Número 411 - 30 de dezembro de 2002

Que 2003 seja melhor do que
as melhores projeções para o futuro

É mais fácil lidar com o passado do que com o futuro, sobretudo num país refém da economia como é o Brasil, por isso devemos ficar atentos para o que acontecerá daqui para a frente

 

Final de ano é uma época propícia para fazer um balanço sobre o período passado e para fazer projeções sobre o período futuro.

Todavia, apesar do futuro constituir-se, para a maioria das pessoas, quase que numa obsessão, pelo menos em se tratando de planejamento empresarial, é mais fácil e bem mais tentador olhar para trás do que para frente. Procurar saber ou explicar porque determinada coisa programada não foi feita parece mais confortável do que tratar do que precisa ser feito para a frente, inclusive a parte do programado que não foi executada.

“É por isso que somos obcecados pelo futuro. Temos medo dele.”

Clemente Nóbrega, físico e consultor brasileiro

Talvez o medo nos faça o passado parecer mais suportável, mesmo que seja para tratar do que não foi feito. Talvez seja mais fácil, do ponto de vista psicológico, procurar culpados pelo que não aconteceu do que assumir responsabilidades pelo que precisa acontecer.

Quando passamos do plano pessoal ou empresarial para o plano político, então, a coisa fica mais complexa ainda. Sobretudo num país como o nosso que sofre, há décadas, a onipresença da economia na vida política nacional.

“A economia é uma ciência mais hábil em interpretar o passado do que em prever o futuro.”

Gustavo Patú, jornalista brasileiro

Num momento de transição política como o que estamos vivendo essa realidade precisa ser bem observada para que não atrapalhe a nossa capacidade de reflexão, tanto em relação ao passado quanto ao futuro. Para ajudar nessa tarefa, dois pensamentos de políticos brasileiros de expressão sobre o futuro.

“O futuro não é o que a gente teme. O futuro é o que a gente ousa.”

Carlos Lacerda, 1914-1977, político brasileiro

“A melhor forma de apostar no futuro é fazê-lo brotar no presente.”

Juscelino Kubitschek, 1902-1976, ex-presidente

A peculiaridade do momento de transição pelo qual passa o país pode, de certa forma, comprometer tanto a capacidade de compreensão do passado quanto a de projeção do futuro. Tanto a satanização do passado (governo FHC) quanto a excessiva expectativa em relação ao futuro (governo Lula) precisam ser reguladas.

“Há países em que é tão difícil prever o futuro quanto o passado. (…) Os próximos anos vão definir não apenas o futuro quanto o próprio passado. Afinal, o país não é uma página em branco. Nele foram recentemente inscritas novas características. Se o país der certo, as mudança, no atacado, estarão aprovadas. Se o país der errado, as mudanças estarão, também, condenadas. Paradoxalmente, o acerto de um governo de oposição consagraria, no atacado, a obra de FHC. E vice-versa.”

Antônio Barros de Castro, economista brasileiro

Com essa constatação, o Gestão Hoje encerra um ano atribulado e difícil, marcado por importantes tensões na economia e por uma mudança expressiva na política, com implicações significativas para o futuro do país.

Os que fazem o informativo e a TGI desejam a todos os leitores e amigos um 2003 de sucesso, na esperança de que as mudanças acontecidas e as ainda por acontecer estejam no caminho da construção de um futuro melhor para o país.

Que 2003 seja melhor do que as melhores projeções para o futuro.

Número 410 - 23 de dezembro de 2002

Um exercício de planejamento
para o governo do presidente Lula

Um breve exercício de planejamento estratégico para o próximo governo aponta um conjunto de exigências que com o empenho, a torcida do país e um pouco de sorte podem ser cumpridas

 

Como qualquer projeto que se inicia, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ser objeto de um planejamento estratégico. Se usarmos as categorias básicas do processo de planejamento, como a matriz SWOT (ameaças, oportunidades, forças, fraquezas), o desafio para 2003 e as prioridades, obteremos algo semelhante ao que se segue.

Oportunidades (Facilitadores Externos ao Governo)

1. Capital de Esperança Recebido (expresso pelos quase 53 milhões de votos conquistados)
2. Ajuste Externo em Curso (duplicação para US$ 12 bilhões do saldo da Balança Comercial e perspectiva de zeragem do déficit em 2004)
3. Bases Fiscais Deixadas pelo Governo FHC (Lei de Responsabilidade Fiscal, “esqueletos” incorporados à dívida e orçamento realista)

Ameaças (Dificultadores Externos ao Governo)

1. Excesso de Expectativas (que pode transformar-se em frustração ante um quadro adverso)
2. Ambiente Internacional Avesso ao Risco (que se traduz na maior restrição de crédito externo da história do país)
3. Inflação (que, por conta do dólar, anda pela casa dos 20% ao ano no atacado e 10% já no varejo) 

Forças (Facilitadores Internos ao Governo)

1. Determinação do Presidente Eleito (a grande vontade de acertar que ele deixa transparecer)
2. Coesão Programática do PT (a maior de todos os partidos brasileiros)
3. “Núcleo Duro”, Competente e Coeso (Dirceu, Palocci, Gushiken, Mercadante e outros, que deve resistir ao desgaste da montagem do ministério) 

Fraquezas (Dificultadores Internos ao Governo)

1. Amplitude da Aliança Política (e a conseqüente dificuldade de contentar a todos na constituição da equipe e harmonizar as diferenças no governo)
2. Ala Radical do PT (que já anunciou que vai fazer oposição ao governo dentro do próprio partido)
3. Desconhecimento da Máquina (o PT assume pela primeira vez uma máquina federal enorme com mais de 22 mil cargos para preencher) 

A partir dessa avaliação estratégica, é possível traçar um desafio do governo Lula para o próximo ano.

Desafio 2003

Utilizar o grande capital de esperança recebido para, mantendo a estabilidade da moeda, fazer os ajustes estruturais necessários, restabelecer a credibilidade no país e habilitar-se à retomada do desenvolvimento sustentado, a partir do próximo ano.  

Com base na avaliação e no desafio, é possível esboçar aquelas que podem ser definidas como as principais prioridades (o que não pode deixar de ser feito pelo próximo governo, sob pena de esvaziar sua credibilidade). Na forma como estão abaixo, as prioridades são uma contribuição do deputado Delfim Netto.

Prioridades

1. Segurar a INFLAÇÃO em um dígito, decrescente (com políticas fiscal e monetária adequadas).
2. Acelerar a taxa de CRESCIMENTO do PIB, sem o que não se reduzirá o desemprego).
3. Reduzir paulatinamente as DESIGUALDADES SOCIAIS, com o aumento das oportunidades, a começar por educação e saúdeReduzir paulatinamente as DESIGUALDADES SOCIAIS, com o aumento das oportunidades, a começar por educação e saúde

Esse breve exercício de planejamento estratégico do próximo governo mostra como são exigentes os requisitos para o futuro de curto prazo. Todavia, uma coisa conta a favor: tanto o governo está muito empenhado quanto praticamente a totalidade do país está torcendo para que dê certo. Com o empenho, a torcida e um pouco de sorte, tem tudo para dar.

Número 409 - 16 de dezembro de 2002

A boa herança institucional
de Fernando Henrique Cardoso

Além da estabilização monetária, Fernando Henrique Cardoso deixa para seu sucessor um importante legado institucional que em muito ajudará no próximo período presidencial

 

O Gestão Hoje, ao longo da era FHC, nunca se furtou de fazer as críticas que julgou pertinentes ao desempenho do governo e às atitudes presidenciais equivocadas (basta acessar o site www.gestãohoje.com.br e digitar “FHC” no local de busca para verificar todos os números que tratam do tema).

Todavia, é de justiça, ao aproximar-se o final da gestão, dedicar esta edição a um breve balanço do que o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso deixou de positivo para o país, já que seus equívocos foram suficientemente assinalados em números anteriores.

De acordo com o historiador e professor titular da UFRJ, José Murilo de Carvalho (Folha de S. Paulo, 20.10.2002), o legado positivo de Fernando Henrique Cardoso pode ser resumido do seguinte modo:

“… a estabilidade da moeda, o aumento da transparência nas ações governamentais, a luta pela responsabilidade fiscal, o comportamento consistente, tolerante e democrático do presidente, o prestígio internacional que conferiu ao país, o acerto de contas com as vítimas da ditadura, a luta constante em favor dos direitos humanos, os avanços na área da educação fundamental e, finalmente, a passagem tranqüila do governo ao sucessor.”

José Murilo de Carvalho

Esse depoimento reforça a tese de que o principal legado de FHC ao país é institucional e não econômico, já que, no período, segundo Luiz Carlos Bresser Pereira, “o Brasil alcançou a estabilidade de preços mas não o equilíbrio macroeconômico.?

O jornalista Luís Nassif, por sua vez, também reforça a tese de que o principal legado de FHC é institucional:

“No plano institucional, a consolidação da estabilização econômica, da democracia, a implantação de novos conceitos de políticas sociais, o início da reprofissionalização do serviço público, o início do trabalho de avaliação da educação, a privatização de setores como telecomunicações e ferrovias, o retorno da visão de planejamento são conquistas insofismáveis.”

Luís Nassif, Folha de S. Paulo, 11.10.2002

Mesmo críticos contumazes de Fernando Henrique, como é o caso do escritor e humorista Luis Fernando Veríssimo, opositor de primeira hora, reconhecem nele, não sem um toque de ironia ferina, essa capacidade notável de representação institucional:

“… será lembrado como um homem democrático e tolerante que nos orgulhou lá fora, e está garantindo, com sua postura, o que antes era considerado impensável, a posse de Lula na presidência. Eu sempre disse que o Fernando Henrique era o melhor presidente que o Brasil já teve, só estava fazendo um mau governo.”

Luis Fernando Veríssimo, IstoÉ Gente, 11.11.2002

Esse destaque dos aspectos positivos do governo FHC é importante para resgatar algo esquecido na disputa eleitoral, ainda recente, que contamina as percepções. Como no calor emocional das disputas futebolísticas, as qualidades do time querido e os defeitos do adversário são radicalizados ao extremo. O equilíbrio, porém, é necessário para o exercício democrático e para a adequada compreensão do que, de fato, aconteceu.

O próximo governo assumirá com uma situação econômica que inspira cuidados mas o fará também recebendo uma boa base institucional de herança do período Fernando Henrique Cardoso. O país ganha com isso, pois avanço institucional é sinal de maturidade política e social.

Número 408 - 09 de dezembro de 2002

“Pode dar muito certo e pode dar muito errado”

Em razão das grandes questões econômicas que se apresentam para o futuro governo, as chances de "dar muito certo" em 2003 são, paradoxalmente, tão fortes quanto as de não dar

 

Na publicação “Brasil em Exame”, de 27.11.2002, o jornalista Carlos Alberto Sardenberg, referindo-se à observação de um dos participantes do debate “Cenários: Como Administrar 2003″, registrou a frase do título, em relação às perspectivas do governo Lula no próximo ano.

De fato, pode-se dizer que, do ponto de vista macroeconômico, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva herda um grande problema externo, uma grande oportunidade externa e um grande problema interno.

O problema externo é o inédito estrangulamento do crédito ao país. Resultado de uma equação perversa que, montada no segundo semestre de 2003, pode expressar-se do seguinte modo: (vulnerabilidade externa do país + tamanho da dívida interna + incerteza quanto à austeridade fiscal do próximo governo) + (aversão internacional ao risco) = maior restrição de crédito da história do país.

A grande oportunidade externa é o quase inacreditável ajuste das contas externas que está sendo feito pelo país com a materialização de um saldo recorde da Balança Comercial da ordem de US$ 12 bilhões em 2002, contra uma projeção de metade até agosto último. Esse ajuste está se dando, sobretudo, pela grande valorização do dólar frente ao real (57% acumulado em 2002). É tão impressionante e acelerado esse ajuste que permite o seguinte prognóstico:

“No ano que vem, o déficit em conta corrente estará próximo de zero. Se os credores externos nos derem tempo, e se conseguirmos manter um superávit primário de 3,75% do PIB, nós sairemos da crise.”

Luiz Carlos Bresser Pereira

O problema interno grave decorre, por sua vez, justamente, da mesma desvalorização cambial que ajuda as contas externas. Com o encarecimento das importações, estabelece-se uma pressão de repasse da valorização do dólar para os preços internos. O resultado é o repique inflacionário e a ameaça da reindexação preços/salários. As taxas anualizadas já se encontram em 20% e 10% para o atacado e o varejo, respectivamente.

Se acontecer o que Bresser Pereira antecipa e a situação internacional se mantiver sem sobressaltos (os EUA não resolverem declarar, por exemplo, guerra ao Iraque), o governo Lula terá disponíveis, do ponto de visita econômico, muito boas condições para dar início a um círculo virtuoso que junte, a partir de 2004, retomada do crescimento econômico com mais desenvolvimento social. Teríamos, aí, o cenário do “muito certo”.

Se, todavia, por outro lado, os credores continuarem insensíveis aos esforços feitos e/ou o ambiente internacional se deteriorar, é o próprio Bresser Pereira quem aponta o caminho inevitável:

“Se, porém, mesmo assim os credores mantiverem a suspensão da rolagem da dívida externa, o Brasil poderá ser forçado a suspender o pagamento da dívida… se acontecer é necessário que o Brasil tenha um Plano B… a centralização do câmbio.”

Luiz Carlos Bresser Pereira

Na ocorrência dessa situação, caracteriza-se o cenário “muito errado”, com todo o seu cortejo de males de dentro para fora (isolamento do país, maior restrição ainda ao crédito etc.).

Além dessa batalha no front externo, a outra que terá que ser travada, sem tréguas, pelo governo Lula no front interno, é contra a inflação. Do ponto de vista psicológico, a inflação não pode passar de um dígito em 2003, sob pena de solapar a base de confiança do próximo governo. Afinal,  Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito para ir além da estabilização (que significa, na prática, inflação controlada), mas preservando-a. Se não conseguir fazê-lo, sua base de apoio solapa-se muito rapidamente.

Número 407 - 02 de dezembro de 2002

Planejamento estratégico,
exercício para manter a empresa sã

A prática regular do planejamento estratégico fortalece tanto a "mente" (pensamento estratégico) quanto o "corpo" (capacidade executiva) da empresa para enfrentar o desafio da competitividade

 

Do ponto de vista empresarial, final de ano e começo de ano novo é época de balanço estratégico. De refazer o exercício de planejamento estratégico com o objetivo de ajustar o foco para o ano que começa.

Para as empresas que não adotaram ainda a prática do planejamento estratégico e pretendem iniciá-la, o procedimento a ser seguido já foi bastante comentado pelo Gestão Hoje. Para recuperar esse conteúdo, basta entrar no site do informativo (www.gestaohoje.com.br) e escrever a expressão “planejamento estratégico” no local de busca.

Para as empresas que já incorporaram o exercício do planejamento estratégico às suas práticas de gestão, o mais conveniente é fazer uma avaliação do que foi realizado no ano e a revisão do desafio e das prioridades para o ano que se inicia.

A principal razão para se proceder dessa forma não é para tentar predizer ou prever o futuro. Afinal, isso é impossível, como bem destaca o especialista francês em prospectiva e planejamento estratégico Michel Godet, em seu livro “Manual de Prospectiva Estratégica - da Antecipação à Ação” (Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1993).

“Todos os que pretendem predizer ou prever o futuro são impostores, pois o futuro não está escrito em parte nenhuma.”

Michel Godet

O que se pode fazer são projeções para o futuro, buscando diminuir a incerteza em relação a ele e “alinhar” as ações em direção ao rumo pretendido. Ao fazer esse exercício regularmente, a empresa reforça seus “músculos” para uma ação conseqüente.

A avaliação estratégica da empresa que já pratica o planejamento estratégico consiste no registro dos seguintes aspectos relevantes:

1. Avanços do ano que passou

São os principais aspectos positivos do ano, sejam internos ou externos à empresa.

2. Dificuldades do ano que passou

São os principais aspectos negativos do ano, sejam internos ou externos à empresa.

3. Propulsores do ano que se inicia

São os principais aspectos facilitadores, sejam internos ou externos à empresa, que podem ser antecipados para o ano que se inicia.

4. Restritores do ano que se inicia

São os principais aspectos dificultadores, sejam internos ou externos à empresa, que podem ser antecipados para o ano que se inicia.

5. Desafio do ano que se inicia

É o enunciado daquilo que, observada a avaliação dos aspectos positivos e negativos do ano que termina e do ano que se inicia, deve constituir-se na principal referência orientadora da ação estratégica da empresa no novo ano. É algo que, depois de formulado, deve ser divulgado internamente o mais possível.

Formulado o desafio do ano, é desejável que sejam definidas as Prioridades (as ações estratégicas, com metas definidas até o dia 31.12 do ano planejado) que devem ser executadas para cumprir o desafio estabelecido. A prática tem demonstrado que as prioridades não devem ser mais de cinco. A partir desse número, fica difícil de guardar na cabeça, de lembrar. Afinal, quem tem muitas prioridades, na prática, não tem prioridade nenhuma.

Feito esse exercício anual (que deve, em princípio, ser atualizado a cada semestre), a empresa desenvolve a sua “mente” (o pensamento estratégico) e fortalece o seu “corpo” (alinhamento da capacidade executiva). Mente empresarial sã em corpo estratégico são.

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