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Número 406 - 25 de novembro de 2002

As principais restrições que
o governo Lula enfrentará em 2003

Para imprimir ao governo um cunho estratégico, como reclama o capital de esperança que lhe foi conferido, o presidente Lula terá que contrapor às restrições alguns facilitadores importantes

 

Em recente evento da Câmara Americana de Comércio em São Paulo (Business Round Up 2002), Celso Pinto, Diretor de Redação e colunista do jornal Valor Econômico (co-patrocinador do evento), expôs o que considera serão os principais constrangimentos / restrições do governo Lula em 2003.

1. Ambiente Internacional

A economia norte-americana continua cambaleante, ameaçada de recessão. A aversão ao risco, turbinada depois dos escândalos das grandes corporações, que afugenta o investimento nos países emergentes, continua grande. É expressiva a ameaça de guerra ao Iraque.

2. Retomada da Inflação

Com a permanência do dólar acima dos R$ 3,00, é muito grande a pressão para o repasse aos preços internos. Os índices de preço no atacado já estão anualizados na casa dos 20% e os de preço ao consumidor na dos 10%. A pressão adicional de indexação de preços e salários será muito forte em 2003.

3. Crédito Interno

Grandes grupos nacionais, por conta da inédita restrição de crédito externo, nos setores aeroviário, de telecomunicações, elétrico, de papel e de mídia, estão enfrentando sérios problemas de caixa. Se a escassez continuar forte, outros setores podem ser atingidos e pode haver risco de crise sistêmica.

4. Ajuste Fiscal

O ajuste fiscal realizado no segundo mandato FHC foi feito com base em receitas extraordinárias que não se repetirão. Inclusive o orçamento 2003 está desfalcado de R$ 15 bilhões de receitas extras. Não há mais espaço para acréscimo de receitas via aumento de impostos (a carga tributária já está em 35% do PIB).

5. Capital Político

Diante de um cenário de crescimento medíocre e da ameaça da retomada da inflação, junto com a promessa de realização de reformas difíceis, o capital de esperança recebido pelo novo governo corre o risco de se exaurir rapidamente se ele não conseguir, em curto espaço de tempo, executar uma agenda positiva e dinâmica.

Como aspectos facilitadores, para enfrentar essas restrições e permitir a impressão de um ritmo forte de partida, o governo Lula tem, além do já citado capital político, os resultados do extraordinário ajuste das contas externas que está sendo realizado pelo saldo recorde da balança comercial (US$ 12 bilhões, contra uma estimativa otimista, no início do ano, de US$ 6 bilhões).

Com esse saldo e um pouco de sorte, o novo governo poderá iniciar a reversão das expectativas negativas dos investidores externos, refletidas de forma cruel no risco-país acima de 1.500 pontos, quando a média dos países em desenvolvimento, excluída a Argentina, é de 600 pontos (nível em que o Brasil esteve em 2000).

Essa retomada da confiança externa é fundamental para que se restabeleçam o fluxo de capitais e as linhas de crédito externas, sem o que continuará presente a ameaça de risco sistêmico e a pressão sobre o câmbio, com a conseqüente pressão sobre os preços internos.

A favor de um círculo virtuoso que pode, apesar das dificuldades, começar a se estabelecer em 2003, além do capital político de esperança, do ajuste externo em curso e da sorte, existem algumas conquistas institucionais que serão recebidas como boa herança dos anos FHC. São elas: (1) Lei de Responsabilidade Fiscal; (2) sistema de câmbio flutuante; (3) sistema de metas de inflação (que precisa ser ajustado mas mantido); e (4) um orçamento mais sério, com metas fiscais incluídas.

Caberá ao novo governo, de par com o conteúdo programático mais social que tentará imprimir à atuação pública no país, equilibrar esses fatores restritivos e impulsionadores para conseguir uma ação conseqüente. Esse é, de resto, o desafio de toda gestão, pública ou privada, que se pretende estratégica.

Número 405 - 18 de novembro de 2002

Na melhor hipótese,
2003 não será um ano fácil

Já que a macroeconomia não ajudará as empresas no próximo ano, a atenção deve voltar-se para os fatores sob governabilidade: caixa (receita, despesas e juros) e clientes atuais e futuros

 

Para o bem ou para o mal, 2003 não será, do ponto de vista macroeconômico, um ano fácil. Para o bem, se o governo que entra conseguir contornar as dificuldades herdadas do governo que sai e chegar em 2004 apto a imprimir sua marca própria (mais social), preservando a estabilidade. Para o mal, se não conseguir fazer isso.

A favor do cenário positivo, o próximo governo receberá, por efeito “benéfico” da desvalorização do real e, por conseguinte, do aumento do saldo da balança comercial (estimado em surpreendentes US$ 12 bilhões em 2002), o ajuste externo praticamente feito.

Conspirando para o cenário negativo, o governo Lula herdará, também por arte da valorização do dólar, o risco de repasse da alta para os preços e de um repique da inflação. Com isso, uma forte demanda por reindexação dos preços e dos salários.

Entre os dois cenários, a montagem do ministério e da equipe do Banco Central, a negociação do acordo com o FMI, a construção do “pacto social? e as prioridades declaradas pelo coordenador da transição já para início em 2003:

“Reformas tributária e previdenciária são questões fundamentais. Além disso, é preciso uma ação forte para a exportação e a substituição de importações. Em terceiro lugar, políticas de renda e de mercado interno.”

Antônio Palocci, Folha de S. Paulo, 17.11.2002

A magnitude das questões em jogo reforça a convicção de que, do ponto de vista macroeconômico, também em 2003 não haverá moleza para ninguém, como, aliás, já vem ocorrendo há pelo menos dois anos.

Em face dessas perspectivas e com a macroeconomia sem ajudar, resta às empresas o cuidado redobrado em 2003 com os fatores relacionados à sobrevivência que estão mais sob a sua governabilidade:

1. Cuidado Redobrado com a Receita

Não negligenciar a receita da empresa é um item essencial de sobrevivência num ano difícil. Não basta vender bem, é preciso receber o preço cobrado, dentro do prazo estabelecido.

2. Controle Obsessivo das Despesas

Pode-se dizer, usando uma figura de linguagem, que as despesas crescem vegetativamente. Ou seja, deixadas sem acompanhamento, só tendem a aumentar, nunca a diminuir. Por isso, toda atenção é pouca quando se trata de controlar despesas.

3. Fuga dos Juros

Sem o necessário cuidado com a receita e sem o controle obsessivo das despesas, o resultado é o pagamento de juros que, no Brasil, são os maiores do mundo. Não tem margem que resista por muito tempo ao pagamento regular de juros no país, hoje em dia.

4. Atenção aos Clientes de Hoje

Controlado o caixa, a atenção deve concentrar-se no melhor atendimento possível aos clientes que compram da empresa, hoje. Na expressão de Sam Walton, fundador do Wal-Mart, o cliente é que é o verdadeiro patrão, pois se não comprar ele demite todo mundo, inclusive o presidente.

5. Prospecção Cuidadosa dos Clientes de Amanhã

Cuidar dos clientes atuais, só, não basta. Por melhor que sejam os produtos e os serviço, as estatísticas mostram que a empresa perde de 10 a 20% dos clientes por ano, em decorrência de uma rotatividade que pode ser considerada natural. Conseguir novos é, portanto, essencial à sobrevivência.

Cuidado, portanto, com os fatores mais sujeitos à governabilidade de empresa é uma atitude necessária em 2003 para garantir a travessia para 2004.

Número 404 - 11 de novembro de 2002

O presidente Lula conseguirá
resistir à tentação do sebastianismo?

Depositário de uma grande demanda de mudança e, de certo modo, de "salvação da pátria", conseguirá o presidente eleito resistir à tentação de transformar-se num líder populista?

 

Amainada um pouco a euforia decorrente da grande vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva, começam a ficar evidentes alguns aspectos importantes do fenômeno ocorrido que recomendam um pouco de reflexão para iluminar as projeções do que pode vir a ocorrer no futuro.

A mais recente pesquisa do Instituto Sensus, por encomenda da CNT (Confederação Nacional dos Transportes), aponta alguns resultados reveladores. As principais razões alegadas para o voto em Lula foram porque: (1) ele “tem sensibilidade para os problemas” (34,0%); (2) ele “tem capacidade para montar boa equipe” (22,4%); (3) “gosto dele como pessoa” (13,7%); (4) ele é “contra o governo Fernando Henrique” (12,2%).

Por esses resultados depreende-se que mais de 70% dos eleitores votaram no candidato Lula por suas qualidades pessoais (inclusive de ser capaz de formar um “time” bom de “jogo”) ou por razões afetivas (”gosto dele”). Não votaram em propostas partidárias ou contra o governo FHC. Ao que parece, votaram em alguém capaz de promover os avanços de que o governo FHC não foi capaz.

É importante notar que esse voto pessoal e afetivo fixou-se em Lula depois de “passear” pelas candidaturas Roseana Sarney, Ciro Gomes e, até, Antony Garotinho. Antes de ter a candidatura “detonada” pelo escândalo Lunus, Rosena conseguia, segundo as pesquisas de opinião da época, vencer Lula no primeiro e no segundo turno. O mesmo ocorreu com Ciro, antes das desastradas declarações que o fizeram parecer, ainda mais, com uma nova versão de Collor e cair em desgraça com o eleitorado (ele chegou a ficar tecnicamente empatado com Lula no primeiro e a vencer nas projeções para o segundo turno).

A “fixação” do voto em Lula deu-se, sobretudo, no último mês de campanha, o que o fez quase ganhar no primeiro turno e conseguir a consagradora votação do segundo turno.  Essa trajetória mostra que Lula tornou-se depositário de uma esperança “circulante” que se fixou nele firmemente mas que traz, além do forte componente emocional, uma carga de “salvacionismo” bastante acentuada que vai requerer muita habilidade para evitar que se reverta em desilusão e, em seguida, em rejeição.

É fundamental que estejamos atentos a essa forte demanda salvacionista que a sociedade brasileira, herdeira que é do imaginário ibérico e, mais especificamente, do português, alimenta desde as suas mais remotas origens.

Essa demanda eterna por “salvadores da pátria” tem até um nome: sebastianismo. Ou seja, a crença ancestral, culturalmente arraigada mas modernamente encoberta, na ressurreição redentora de D. Sebastião (1554-1578), jovem monarca português, desaparecido nas areias do atual Marrocos, durante a batalha de Alcácer Quibir contra ou mouros. Por não ter descendentes, D. Sebastião deixou Portugal sem herdeiros ao trono que terminou usurpado pela Espanha. Essa “orfandade” nacional acabou por fortalecer a crença messiânica no retorno do rei desaparecido para libertar seu povo oprimido e transferiu-se, com o colonizador, para o novo mundo.

O presidente eleito tem dito (e já praticado nas suas saídas à rua) que fará uma presidência diferente e governará junto ao povo. Nada de mais, se conseguir garantir duas coisas. Primeiro, que a figura do presidente seja preservada na sua integridade física e institucional. Recentemente, ele quase caiu no espelho d’água do Palácio do Planalto ao saldar os simpatizantes frenéticos que foram acompanhar sua primeira visita como presidente eleito ao presidente em exercício Fernando Henrique. Seria um vexame, e uma metáfora, cair e encharcar-se d’água por responder à pressão do frenesi.

Em segundo lugar, se conseguir evitar, também, cair na tentação do populismo (velho expediente político brasileiro de resposta à demanda sebastianista). Precisamos de um presidente que, a exemplo de FHC, deixe o país melhor do que encontrou. Um populista, ainda que mais à esquerda, não conseguirá.

Número 403 - 04 de novembro de 2002

O futuro do governo Lula entre
o polonês Walesa e o britânico Blair

Favorecido por uma "trégua" inicial, Luiz Inácio Lula da Silva coloca-se diante do desafio de ir além do seu próprio notável feito, mirando-se no exemplo de líderes bem sucedidos de outros países

 

Ao contrário do que ocorreu nos meses anteriores à eleição, os chamados mercados financeiros deram, na semana passada, sinais de boa vontade para com o presidente eleito.

O dólar, em queda, atingiu o patamar dos R$ 3,60 (depois de chegar a beirar os R$ 4,00, semanas antes). O risco-país do Brasil retrocedeu ao patamar dos 1.700 pontos (depois de ter chegado próximo aos 2.500 antes). A bolsa de valores ultrapassou os 10.000 pontos (depois de ter descido próximo aos 8.000). São valores que ainda estão bem fora dos padrões considerados razoáveis pelos analistas mas que parecem sinalizar para um início de volta à racionalidade econômica. Afinal, os chamados “fundamentos” da economia brasileira, bem melhores do que a ignorância ou a esperteza dos analistas e investidores, estrangeiros principalmente, faziam crer, são muito diferentes (para melhor) dos da Argentina (a referência usada pelos “terroristas” financeiros para manipular os indicadores).

Nesse início de retorno à racionalidade, marca-se um ponto para a movimentação inicial do presidente eleito e de sua assessoria imediata. Sem deixar de imprimir a marca da nova gestão que se iniciará em janeiro (sobretudo com o anúncio da prioridade ao Projeto Fome Zero), o presidente eleito e a coordenação da equipe de transição reafirmaram, com a necessária ênfase, o compromisso com a estabilidade macroeconômica.

Foi um bom começo de ensaio para o duro jogo que acontecerá em 2003, num momento em que todos os olhos estão voltados para a movimentação dos novos atores da cena política nacional. Comparações não faltam, a começar pela tola semelhança com o presidente Hugo Chávez da Venezuela, com quem o presidente eleito Lula se juntaria para formar, com Fidel Castro, o “eixo do mal”.

Comparações são importantes para pensar o futuro mas precisam ser feitas com critérios minimamente consistentes, como parece ter feito o embaixador Rubens Ricupero, secretário geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento), ao classificar de “inédita” a chegada de uma pessoa de origem operária à Presidência da República.

“O embaixador comentou que, depois de ter pesquisado muito, só encontrou uma situação semelhante à de Lula, que foi a eleição do sindicalista Lech Walesa, do Sindicato Solidariedade, como presidente da Polônia.”

Estado de São Paulo, 27.10.2002

Walesa, eletricista dos estaleiros Gdansk, chegou ao poder mais de uma década após liderar em 1980 as primeiras greves dentro da Cortina de Ferro, desafiando o regime comunista de Moscou ao criar o Sindicato Solidariedade, depois transformado no principal partido político da Polônia. Implantou reformas necessárias mas impopulares, perdeu a reeleição para os comunistas que ajudou a derrubar e, no último pleito que disputou em 2000, teve menos de 1% dos votos. Hoje, o partido Solidariedade é uma mera sombra do que foi antes.

Para o bem do seu governo e do país, Luiz Inácio Lula da Silva precisa ir além da comparação e do destino histórico de Walesa. Deve, talvez, mirar-se em exemplos mais exitosos como o de François Mitterrand, líder histórico do partido socialista francês que, como ele, fez várias tentativas antes de chegar à Presidência e reelegeu-se fazendo um governo de reformas. Ou no de Gerhard Schröder, premier alemão, como ele de origem humilde e de esquerda, que impôs-se com um programa econômico consistente e, recentemente, reelegeu-se. Ou no de Tony Blair, talvez o mais adequado, que à frente da reforma do partido trabalhista inglês, sucedeu uma década de domínio conservador, manteve os avanços realizados, ajustou o que foi preciso e está em vias de se reeleger pelos bons resultados conseguidos.

A história pode ser fonte de inspiração e exemplo a ser superado. Esperemos que o novo governo saiba bem usá-la, marcando um outro tempo, o do nosso futuro.

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