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Número 402 - 28 de outubro de 2002

Que a eleição de Lula seja,
de fato, o prenúncio de um país melhor

Ao chegar à Presidência da República com uma votação consagradora, Lula tem pela frente o grande desafio de mobilizar o capital de esperança que recebeu para iniciar uma nova era no país

 

Concluída a maior eleição da história brasileira, Luiz Inácio Lula da Silva chega à Presidência da República, no dia do seu aniversário de 57 anos, pilotando a mais forte manifestação popular por mudanças no Brasil desde o movimento Diretas Já, em 1984.

Primeiro pernambucano eleito presidente, Lula chega ao cargo marcado por outros pioneirismos. Será também o primeiro operário e o primeiro civil sem diploma universitário a sentar na cadeira presidencial. Com esse feito, coroa uma impressionante trajetória de vida que começou na área rural da cidade de Garanhuns, passou pela viagem de retirante aos 5 anos em direção a São Paulo, pelo trabalho infantil de engraxate e tintureiro, pela formatura de torneiro mecânico no Senai, pela profissão de metalúrgico, pela vida de sindicalista no ABC paulista, pela prisão no Dops, pela fundação e presidência do PT, pela eleição como deputado constituinte mais votado, pela candidatura ao governo de São Paulo e por quatro candidaturas à Presidência da República.

A esse propósito, merece ser reproduzida a visionária poesia do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, datada de 1926, anterior à própria publicação do clássico Casa Grande & Senzala, que circulou no Recife entre o primeiro e o segundo turno:

“Eu ouço as vozes / eu vejo as cores/ eu sinto os passos / de outro Brasil que vem aí / mais tropical / mais fraternal / mais brasileiro. / (…) / Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil / lenhador / lavrador / pescador / vaqueiro / marinheiro / funileiro / carpinteiro / contanto que seja digno do governo do Brasil / que tenha olhos para ver pelo Brasil / ouvidos para ouvir pelo Brasil / coragem de morrer pelo Brasil / ânimo para viver pelo Brasil / mãos para agir pelo Brasil. / (…)/ Mãos brasileiras / brancas, morenas, pretas, pardas / roxas / tropicais / sindicais / fraternais. / Eu ouço as vozes/ eu vejo as cores / eu sinto os passos / desse Brasil que vem aí.”

Gilberto Freyre, Talvez Poesia, 1926

Como se todo esse pioneirismo não bastasse, Lula, com os mais de 52 milhões de votos que recebeu no segundo turno, transforma-se num dos candidatos mais votados da história da humanidade (Ronald Reagan teve 55 milhões, George W. Bush 50,4 milhões, Bill Clinton 47,4 milhões, Vladimir Putin 39,7 milhões e Fernando Henrique 35 milhões em 1998).

Todos esses votos e a carga de esperança que os trouxe, conferem ao novo presidente, também, uma responsabilidade sem precedentes na história recente do país. O recado das urnas parece claro: a etapa da estabilização da economia e da consolidação do real, pedra de toque das duas campanhas de Fernando Henrique Cardoso, está vencida. Agora, o que se parece exigir é, preservadas as conquistas macroeconômicas, mais emprego, mais segurança, mais desenvolvimento, menos desigualdade social.

Caberá a Lula lidar com toda essa carga de expectativa e aproveitar a grande mobilização conseguida como energia para fazer o país avançar, administrando as eventuais frustrações em face dos limites da realidade. No discurso que pronunciou na Avenida Paulista, em comemoração à vitória, na madrugada da segunda-feira, Lula parece dar uma pista de que tem consciência disso:

“Até agora as coisas foram fáceis. Daqui para frente é que vão ficar difíceis.”

Luiz Inácio Lula da Silva, 28.10.2002

Tomara que essa consciência prevaleça e que Lula, iluminado pelas palavras proféticas de Gilberto Freyre, tenha força para guiar sua ação e a do PT na direção em que a população aponta, com competência e sem concessão às demandas impossíveis. E que, de fato, a esperança vença o medo. A nação espera por isso.

Número 401 - 21 de outubro de 2002

A natureza incomum da crise
e a responsabilidade dos presidentes

Diante da natureza incomum da crise que se abate sobre a economia brasileira, cresce a responsabilidade do presidente que sai e do que entra, na transição e após a posse em janeiro

 

A exemplo do que já acontecera no final da campanha presidencial de 1998, a passagem de um mandato para o outro se fará em meio a uma turbulência econômica significativa.

O presidente que tomará posse em janeiro vai assumir o leme de uma embarcação que está navegando em mar bastante adverso. A propósito dessa imagem de tempestade no mar, a economista Eliana Cardoso já havia feito, em artigo para o jornal Valor Econômico, a comparação, reproduzida pela revista Veja desta semana, com a situação do filme “Mar em Fúria” (The Perfect Storm, USA, 2000), onde três fenômenos atmosféricos distintos e expressivos se combinam para formar a “tempestade do século”.

Os três fenômenos que se combinaram em 2002 e ameaçam a tranqüilidade do novo comandante foram: (1) a dependência estrutural da economia brasileira de dólares para fechamento do seu balanço de pagamentos (e o risco associado de um calote da dívida pública se os recursos necessários não forem captados); (2) a aversão ao risco que se formou no mercado financeiro internacional depois do “estouro” da “bolha” especulativa da nova economia e dos atentados terroristas aos EUA; e (3) a possibilidade de eleição de um presidente de “esquerda” no Brasil, o que provoca “arrepios” de medo nos investidores mal informados e excitação incomum nos especuladores bem informados.

Tudo isso junto produziu a mais forte restrição de crédito com a qual a economia brasileira já se deparou na história recente. Um verdadeiro fechamento de portas que tem provocado, na prática, o fenômeno do “crédito raro e caro”, responsável por levar as empresas endividadas em dólar a um sufoco sem precedentes e a uma forte pressão pela compra da moeda estrangeira no mercado interno.

Os sintomas dessa situação atípica, usada, inclusive, pelos especuladores externos e internos para auferirem altos ganhos adicionais, se expressam em dois indicadores, hoje, nas alturas: no exterior, o risco-Brasil, acima dos 2.000 pontos; no interior, a cotação do dólar, batendo na casa dos R$ 4,00 para intranqüilidade geral e irrestrita. Com um agravante muito preocupante: o risco da inflação disparar pela demora da permanência do dólar em patamar tão elevado e do repasse para os preços.

A navegação em mares tão turbulentos exigirá, tanto do governo que sai quanto do governo que entra, responsabilidade, agilidade e competência. Responsabilidade para não deixar que questões acessórias, como futricas políticas, possam vir a se constituírem em fatores adicionais de turbulência. Agilidade para colocar em prática, sem demora, as medidas necessárias ao enfrentamento das dificuldades. E competência, tanto para entregar o leme em condições de navegação minimamente satisfatórias quanto para, depois de assumir, manter-se na rota segura em meio à turbulência.

É de justiça dizer que tanto o governo que sai está agindo no sentido de fazer uma transição civilizada e cooperativa (algo talvez nunca acontecido desde a República Velha em 1930, nem mesmo no período dos governos militares que, pelo menos em tese, eram do mesmo “partido”), quanto os candidatos ao próximo governo estão agindo, até o momento (e nada faz crer que mudem de postura na reta final), de forma civicamente responsável (atitude, também, historicamente rara).

Com um senão, apenas: a não realização, no segundo turno, do indispensável debate aprofundado das propostas entre os candidatos, sobretudo em relação ao que fazer para enfrentar a crise econômica incomum pela qual está passando o país. Essa ausência será inevitavelmente cobrada durante o próximo governo. Tomara que de uma forma suportável.

 

Agradecimento

Agradecemos, pelas equipes da TGI Consultoria em Gestão e do Gestão Hoje, a todos os que nos enviaram parabéns e votos de sucesso pelos 12 anos da TGI e pela publicação do número 400 do GH.

Obrigado, amigos!

Número 400 - 14 de outubro de 2002

400 edições testemunhando a História
e acreditando na capacidade de ir além

O Gestão Hoje comemora o seu número 400, junto com os 12 anos da TGI, reforçando sua convicção de que o país é maior que as dificuldades conjunturais e que retomará seu caminho

 

Nesta edição, nós que fazemos o Gestão Hoje, temos duas marcas a comemorar: o número 400 do informativo e os 12 anos de atuação da TGI no mercado nordestino de consultoria empresarial. E gostaríamos de fazer isso pedindo licença para homenagear os leitores do GH e os clientes e amigos da TGI com uma breve retrospectiva e uma mensagem de esperança no futuro.

Desde que a TGI começou a funcionar em outubro de 1990, muitas coisas aconteceram no Brasil e no mundo, nos planos político, econômico e gerencial, afetando, de modo às vezes atordoante, a gestão empresarial. A década de 90 foi particularmente rica em eventos e mudanças marcantes.  Em meio ao exigente exercício da atividade de consultoria empresarial, logo sentimos a necessidade de dispor de um veículo que pudesse funcionar, ao mesmo tempo, como escoadouro das perplexidades do ambiente em mutação, abrigo das reflexões emanadas da prática cotidiana, além de local de incentivo ao debate, num mundo de muitas dúvidas e poucas certezas, a maioria delas dogmáticas.

Foi com esse intuito que, em março de 1994, veio à luz o informativo Gestão Empresarial-Conjuntura & Tendências na forma de fax-paper, o primeiro de sua categoria (gestão empresarial) no Brasil. Inicialmente com edições não numeradas, em janeiro de 1995 inicia-se a série semanal ininterrupta que, hoje, chega ao número 400.

Nesses 12 anos da TGI e nos quase 9 do GH, de par com o que convencionou-se chamar de globalização, muitas novidades surgiram, floresceram e caíram no ostracismo em se tratando de management. Qualidade Total, Benchmarking, Reengenharia, Aprendizagem Organizacional, Avaliação 360º, Empowerment, Balanced Scorecard etc. Pelo menos uma novidade por ano, sem falar no furacão da Internet que, mais do que um fenômeno de mídia, em seu ilusório auge, pretendeu ditar regras não só para a economia (autodenominada de “nova”) como também para a gestão empresarial. Certo estava o escritor e físico israelense Eliyahu Goldratt, autor do livro “A Meta”, quando disse:

“Modismos cegam as pessoas.”

Eliyahu Goldratt, Exame, 27.09.2002

No campo da economia, desfilaram diante dos nossos olhos atônitos, com impactos profundos nas contabilidades empresariais, a inflação galopante; o confisco dos depósitos e da poupança; o Plano Real; a brilhante solução da URV; a abertura da economia; o populismo cambial (1 dólar = 1 real); as crises do México, da ?sia, da Rússia, do Brasil e da Argentina; as privatizações; a desvalorização cambial; o crescimento exponencial da dívida pública; o estouro da “bolha” da Internet; o 11 de setembro; a crise da energia; e, agora, para nossa inquietação, a crise de confiança internacional no futuro do país (com a subida do dólar e do Risco Brasil).

No campo político, vimos, espantados, o primeiro presidente eleito após quase três décadas, acuado por impressionante mobilização popular e política, renunciar para não ser cassado por improbidade (o que terminou acontecendo); o inacreditável governo Itamar Franco; o espantoso sucesso eleitoral do plano real de estabilização econômica; a eleição, a reeleição e o ostracismo de FHC; e, agora, veremos, daqui a dois meses, a primeira passagem de cargo entre presidentes eleitos desde a posse de Jânio Quadros em 1961.

Assim como o antigo Repórter Esso se intitulava, naquela época já remota, o Gestão Hoje pode se orgulhar de também já ser “testemunha ocular da história”, sempre com o compromisso firme de, ancorado na prática diária da atividade de consultoria empresarial da TGI, procurar interpretar e traduzir os acontecimentos relacionados ao gerenciamento, à economia e à política em elementos capazes de subsidiar, com os pés no chão, a gestão empresarial estratégica.

Sem concessão a modismos. Com a crença permanente na capacidade do país superar suas dificuldades, independente de quem venha a ser eleito em 27.10.2002. Com a esperança de ver brilhar o sol de um futuro que crise nenhuma é capaz de nublar.

Número 399 - 07 de outubro de 2002

No primeiro turno quem ganhou
mesmo foi a democracia brasileira

Com a passagem de Lula e Serra para o segundo turno, avança a democracia brasileira e o país ganha uma chance concreta de começar a escrever um novo capítulo de sua história

 

Terminado o primeiro turno, a democracia brasileira dá um show de vitalidade e um exemplo tecnológico para o mundo: a maior eleição informatizada do planeta, com o fim da apuração total dos votos menos de 24 horas após o encerramento oficial da votação.

Com o resultado final e a confirmação da ida para o segundo turno dos candidatos Luiz Inácio Lula da Silva e José Serra, materializa-se a principal vantagem do sistema de eleição por turnos: a oportunidade de se ter um verdadeiro debate de idéias e a confrontação explícita das propostas dos candidatos melhor avaliados pelos eleitores. Do ponto de vista político, há um ganho evidente e é pedagogicamente muito melhor para o eleitorado.

Do ponto de vista qualitativo houve, também, um avanço significativo. Não deixa de ser um privilégio para o Brasil poder ter um segundo turno com dois candidatos da estatura e da densidade política de Lula e de Serra, representantes legítimos dos dois partidos social-democratas brasileiros.

Trata-se de um avanço importantíssimo que não deve ser perdido de vista no segundo turno. Passada a fase onde a influência do marketing político é muito grande, os candidatos terão, agora, que dizer com clareza o que propõem. O “Lulinha paz e amor”, na expressão do próprio candidato, e o Serra candidato de si mesmo, descolado do governo, vão sair de cena e entrar o Lula oposição e suas propostas concretas para mudar a situação que condena e o Serra representante e continuador do governo ao qual serviu por oito anos.

O risco disso é a radicalização e as seqüelas no próximo governo, decorrentes de uma campanha “sangrenta” no segundo turno, o que seria muito ruim para o país. Todavia, mesmo correndo esse risco, os benefícios são bem maiores.

Embora seja muito difícil manter a serenidade analítica inalterada numa campanha eleitoral (afinal, todos têm os seus candidatos e não conseguem ficar completamente imunes a essa influência), é muito importante, para quem tem responsabilidade social e política, não embarcar no emocionalismo futebolístico - só meu time (candidato) presta; o outro é um desqualificado que deveria ser exterminado, banido da face da terra.

A complexidade social, política e econômica do país e do mundo não comportam mais simplificações desse tipo e requerem um enfrentamento capaz de reunir o máximo possível de forças convergentes para lidar com os complexos problemas reais. Provavelmente, não por acaso, na atual conjuntura política nacional, radicalismos à parte, são justamente o PT de Lula e o PSDB de Serra os partidos que têm maior convergência potencial e densidade política para uma aliança progressista, madura e necessária para o país.

Por isso, é legítimo torcer à distância e agir na proximidade para que a radicalização, inevitável no segundo turno, não resvale para a impossibilidade de aliança, seja formal ou informal, em 2003. As estaturas pessoais de Lula e Serra fazem ter esperança de que essa difícil conquista seja possível. Ambos sabem que, afinal, o Brasil precisa dela.

Em recente palestra na Sociedade Pernambucana de Planejamento Empresarial, dia 27.09.2002, o economista, pernambucano Sérgio Buarque, um dos maiores especialistas em cenários e prospecção estratégica no Brasil, fez a seguinte antecipação para o ano de 2003:

“2003 será difícil. Serra ou Lula tendem a ter um primeiro ano de governo muito parecido, marcado por uma gestão macroeconômica austera, baixo crescimento econômico, manutenção do superávit primário e inflação sob controle.”

Sérgio C. Buarque, SPPE, Recife, 27.09.2002

Com o segundo turno, temos a oportunidade de começar a construir um novo capítulo da história do Brasil. É preciso, apenas, que a disputa democrática e sadia não resvale para a baixaria e para a mesquinhez.

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