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Número 393 - 26 de agosto de 2002

Os impactos imediatos da crise
sobre a saúde financeira das empresas

Pressionadas pelos mais altos juros do mundo e pela queda nas vendas, as empresas são exigidas a cuidar dos custos, do crédito e do caixa, fazendo os ajustes pelo lado da despesa

 

Enquanto a nova crise corre solta, as empresas sofrem seus efeitos diretos. Isso acontece, imediatamente, pela acumulação de dois fatores críticos: encarecimento do crédito e queda nas vendas.

No plano externo, o país sofre o que os especialistas estão considerando a maior restrição de crédito da sua história. Nem mesmo as linhas de curto prazo, destinadas ao financiamento das exportações, estão sendo renovadas. A situação é tão preocupante que o ministro Pedro Malan e o presidente do Banco Central iniciam essa semana nos EUA uma rodada de conversas com os grandes bancos internacionais para tentar demovê-los da firme intenção de não emprestar ao Brasil.

No plano interno, o Banco Central resolveu manter a taxa básica de juros na casa dos 18%, referendando-os,  como os mais altos do mundo (10,3% ao ano, descontada a inflação).

Ressabiados com a estagnação do poder aquisitivo e com o recrudescimento da crise, projetando muitas incertezas para o futuro próximo, os consumidores, por seu lado, se retraem e as vendas empancam. Resultado: com o crédito caro e as vendas em queda, os custos vão lá para cima, pressionando o caixa.

Na atual conjuntura, deve-se ter cuidado redobrado com esses 3 Cs: Custos, Crédito e Caixa. Custos altos, crédito caro e caixa pressionado são a receita certa para aquilo que na língua inglesa se denomina por crash. Ou seja, “quebra”, em bom português. Nunca é demais lembrar, como fazem com ironia os especialistas no assunto, que lucro é, em última análise, uma questão de opinião ou decisão empresarial. Caixa, não. Caixa é como oxigênio para os organismos vivos, se rarear, debilita até a falência total.

Nessas horas de vacas magras e “loucas” com a turbulência, o ajuste para descompressão do caixa tem que ser feito, predominantemente, pelo lado da despesa, já que, pelo da receita, é bem mais difícil.

Aí, põe-se um problema psicológico relevante: fazer ajuste pelo lado da despesa é muito chato, estressante, desagradável. O melhor, mais motivador, mais contagiante, é fazê-lo pelo lado da receita. Afinal, conquistar clientes, lançar novos produtos ou aumentar o volume da vendas é bem mais motivador do que cortar custos, brigar por preço com fornecedores, economizar centavos etc. Aliás, conseguir equilibrar eficazmente essas coisa boas e ruins, como lembra o ex-ministro do Planejamento e atual secretário de Finanças do município de São Paulo, João Sayad, está no cerne da Economia:

“O problema econômico é conseguir o máximo do que a gente gosta com o mínimo do que a gente não gosta; o máximo de receita com o mínimo de custo.”

João Sayad, Folha de S. Paulo, 19.07.99

Ocorre que, de um modo geral e em épocas de crise em particular, a velocidade do aumento da receita, por mais esforço que se faça, é bem menor do que a velocidade que é possível imprimir à redução da despesa. Peter Drucker certa vez já chamou a atenção para isso: a receita é, a rigor, incontrolável porque externa; só é possível controlar, mesmo, a despesa, que é interna.

Já se disse, também, que despesa é como unha: cresce sozinha e tem que ser cortada regularmente. Sam Walton, o lendário criador da maior rede de supermercados do mundo, a Wal-Mart, tem uma frase ilustrativa sobre o controle da despesa também como fator competitivo:

“É preciso controlar as despesas melhor do que a concorrência.”

Sam Walton, revista Exame

Nesses tempos bicudos, portanto, todo o cuidado é pouco com os 3 Cs: Custo, Crédito e Caixa. Para isso, o controle rigoroso das despesas, mesmo que desconfortável, mais do que sempre, é indispensável.

Número 392 - 19 de agosto de 2002

Para presidente, honestidade
é necessária mas não é suficiente

Mais do que caráter, seriedade, honestidade e inteligência, o próximo presidente deve herdar do atual a capacidade de negociação e a preocupação constante com a governabilidade do país

 

24 horas. Foi o tempo que durou o alívio provocado pelo acordo com o FMI. Na semana passada o dólar retomou sua escalada, deixando perplexos os analistas que, dias antes, haviam saudado, alguns com surpreendente euforia, o acerto com o Fundo.

Sobre a questão, é importante destacar duas coisas. Primeiro, que o acordo é necessário, diante do atual quadro crítico de turbulência internacional, para uma transição minimamente previsível de governo no Brasil. Em segundo, que ele, como ficou claro pela manutenção da instabilidade interna, não é suficiente para fazer frente à demanda pela moeda estrangeira hoje (e não no futuro como prevê o acordo) e à incerteza provocada pela eleição presidencial.

Como bem disse o ex-ministro da Fazenda, embaixador Marcílio Marques Moreira, à revista Veja desta semana:

“… para o mercado incerteza é muito pior do que risco, porque esse se pode medir e aquela é imensurável.”

Marcílio Marques Moreira, Veja, 21.08.2002

Foi, justamente, a manutenção do ambiente de incertezas que deve ter levado o presidente Fernando Henrique Cardoso a fazer o surpreendente convite aos quatro candidatos à sua sucessão para conversas individuais no Palácio do Planalto. Essa atitude inédita na história republicana moderna põe em destaque a preocupação que todos têm que ter, independentemente de suas convicções ideológicas e posições políticas, com os destinos do país.

Nesse momento, pouco importa se a política econômica deveria ter sido conduzida assim ou assado. Sem retirar a responsabilidade do presidente da República pelo atual estado de coisas (e haverá oportunidade, pelo menos no Gestão Hoje, para fazer essa análise), não se pode negar sua preocupação com a questão da governabilidade do país no restante do seu mandato e no início do próximo.

Trata-se, quer queiram ou não os insatisfeitos ou desgostosos com os resultados dos oito anos de “reinado” fernandista, de uma atitude de responsabilidade política e evidência de amadurecimento institucional do país.

Nunca é demais repetir: só muita irresponsabilidade política e econômica fará o país “quebrar” como aconteceu com a Argentina. O nosso caso é muito diferente do da nação vizinha. A economia é muito mais forte, as instituições políticas muito mais sólidas, a qualidade das políticas econômicas muito melhor, o potencial de dano à economia mundial de uma possível “quebra” muito maior.

Todavia, embora difícil de “quebrar”, o custo da transição desse momento delicado para um necessário período de maior tranqüilidade macroeconômica, pode ser maior ou menor dependendo da capacidade do próximo presidente de lidar com as grandes exigências da situação presente e as posteriores à sua posse.

Uma análise atenta das pesquisas realizadas até o momento constata que as quatro qualidades consideradas pelos eleitores como fundamentais para o próximo presidente são: caráter, seriedade, honestidade e inteligência. De um modo geral, as enquetes assinalam, também, que elas são encontradas nos candidatos com melhor colocação nas pesquisas.

Vencida essa espécie de “eliminatória” de qualidades mínimas, entretanto, é fundamental colocar outras adicionais e, igualmente, essenciais. A principal dessas qualidades complementares é, justamente, a de ser capaz de governar em permanente diálogo com o Congresso (sem o que não há possibilidade, sequer, de término de mandato) e com as forças representativas do país.

Em outras palavras, de ser capaz de manter a governabilidade em alta pela competência executiva mas, também e principalmente, pelo diálogo, pela negociação conseqüente e pela visão larga das possibilidades. Pelo menos isso, o próximo presidente deve herdar do atual, ainda que lhe faça oposição.

Número 391 - 12 de agosto de 2002

Governabilidade é o nome
do jogo para o próximo presidente

O acordo anunciado com o FMI dá oportunidade para que se reflita sobre a importância da governabilidade para o futuro do país e, por conseguinte, para a decisão sobre em quem votar

 

Um grande alívio. Esse foi o sentimento passado por todos os que comentaram o anúncio do fechamento do novo acordo do Brasil com o FMI, o maior da história do Fundo, na semana passada. Inclusive os candidatos a presidente, com exceção apenas de Garotinho, o que tem, no momento, menos chance de ser eleito e, por isso, dá-se ao luxo de condenar, da boca para fora, o acordo.

De fato, diante da inédita escassez de recursos externos que acomete a economia do país, inclusive o crédito privado, e da inescapável incerteza relativa ao resultado das eleições de outubro, esse acordo funciona como uma ponte importante para a transição.

O ideal seria que a economia do país já estivesse no ponto de não precisar de nenhum avalista financeiro internacional para fazer uma transição política absolutamente normal num regime democrático. Todavia, é preciso ter em mente que a vulnerabilidade externa do país é grande e as condições “ambientais” pioraram muito nos últimos três meses. Sem o aval dado pelo acordo, embora fosse pequeno o risco do país “cair”, era alta a probabilidade de ser obrigado a fazer um “pouso forçado” por falta do “combustível” do crédito (ver a respeito o GH/390).

O acordo foi importante para a transição e, inclusive, para o início do mandato do próximo presidente (dos  US$ 30 bilhões postos à disposição do Brasil, US$ 24 bilhões só serão liberados em 2003). O candidato Lula comparo-o a uma ida ao dentista: é ruim mas, às vezes, inevitável.

O apoio implícito dos candidatos a uma medida necessária conduzida pelo governo que será sucedido ressalta, inclusive, algo muito positivo que é uma faceta de maturidade do processo sucessório em curso. Afinal, o que está em jogo é a governabilidade do país nos próximos anos.

Essa posição politicamente madura é muito promissora porque não há mais espaço no país para nenhum tipo de voluntarismo ou para bravatas cívicas de qualquer natureza. Se quisermos passar com um mínimo de segurança o período atual de turbulências e, mais na frente, chegar a um destino seguro, será forçoso trilhar políticas econômicas responsáveis e inevitavelmente austeras por muitos anos ainda como alerta, com bastante propriedade, o colunista econômico Luís Nassif:

“Se os últimos anos deixaram lições, a mais séria delas é que o país tem que atuar preventivamente. Não poderá mais moldar sua política econômica confiando na concretização do cenário ideal. A política econômica tem que ser conservadora. E ser conservadora significa preparar o país para o pior cenário. Se não ocorrer o pior cenário, melhor.”

Luís Nassif, Folha de S. Paulo 08.08.2002

E o mais exigente é que isso terá que ser feito em sintonia com desenvolvimento econômico e uma política social ativa. Ninguém pode esquecer que o Brasil, apesar de ser a 10ª economia mundial, detém o 73º lugar no ranking do ?ndice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU.

Para resolver a difícil equação cujas variáveis são estabilidade, desenvolvimento e inclusão social, o próximo presidente terá que zelar, de forma obsessiva, pela governabilidade. Num ambiente político turbulento ou mergulhado em crises internas freqüentes, nenhum chefe do poder executivo, por mais qualificado ou destemido que seja, conseguirá enfrentar a difícil situação externa e terminar bem o seu mandato.

Governabilidade no Brasil é sinônimo de capacidade de governar em sintonia com o Congresso. Fernando Henrique Cardoso foi o presidente que, após a redemocratização, mais se empenhou na criação de condições políticas para governar. Mesmo assim, apesar da coligação que montou e de sua predisposição pessoal para o diálogo político, enfrentou crises importantes.

Na escolha do próximo presidente, esse é um aspecto que deve ser observado atentamente pelo eleitor.

Número 390 - 05 de agosto de 2002

Apesar da turbulência,
o Brasil vai continuar “voando”

A aversão internacional ao risco tem provocado uma inédita restrição ao crédito externo que tem influído na valorização do dólar, por isso é preciso responsabilidade dos formadores de opinião

 

A semana passada foi, do ponto de vista da economia, particularmente agitada, uma das mais nervosas da era do real. Na quarta-feira 31, o dólar chegou a ser cotado a R$ 3,61, igualando-se à cotação do peso argentino e acumulando, no fim do dia, uma valorização no ano de 51,1%, sendo 23,4% só no mês de julho.

Acompanhou esse cenário, contribuindo para o nervosismo e para a corrida ao dólar, a maior restrição de crédito externo já observada em tempos recentes. A ponto de o deputado Delfim Netto, experimentado conhecedor dos meandros da economia nacional, ter dito textualmente: “nunca vi isso ocorrer antes”.

“… pela primeira vez na história, o Brasil enfrenta uma crise que ameaça também as linhas de crédito aos exportadores, normalmente beneficiados em período de desvalorização cambial.”

Matéria da Folha de S. Paulo, 28.07.2002

Por que isso acontece? Está todo mundo com medo de emprestar ao Brasil, governo ou empresas, porque o ambiente internacional está muito conturbado, porque os fundamentos da economia, embora muito melhores que os de nossos vizinhos do Mercosul, têm lá os seus problemas e porque não se sabe o que vai acontecer depois que o próximo presidente assumir.

Para entornar ainda mais o caldo para o nosso lado, o  vizinho “de porta” Uruguai terminou adotando, na semana passada, medida semelhante ao “corralito” argentino: confisco de parte dos depósitos e poupanças da população depositada em bancos.

A situação permite usar a imagem do avião que em pleno vôo enfrenta turbulências: (1) as condições externas são difíceis (a economia norte-americana e, por seu tamanho, a do mundo também, está abalada); (2) o equipamento tem lá os seus problemas (os fundamentos da economia não estão 100%); e (3) o piloto vai ser trocado e não se sabe se o que vai assumir tem condições de manter o avião no ar (há quem esteja dizendo, até, que o atual piloto não terá condições de terminar o seu turno e terá que passar o comando ao sucessor, antes do prazo).

Em momentos como o atual é preciso muita cautela de todos e espírito cívico dos homens públicos para que a crise não seja amplificada pelo nervosismo ou inconseqüência de quem tem a responsabilidade de manter a calma dos “passageiros”. O que aconteceria se, em plena turbulência, a tripulação da nossa hipotética aeronave começasse a gritar, desesperada: “desse jeito o avião vai cair”?

O Brasil não vai “cair”. Em primeiro lugar porque o “equipamento”, apesar dos defeitos, é bom: as dívidas públicas, tanto interna quanto externa, embora altas, são perfeitamente administráveis. Em segundo porque dentre os candidatos a “piloto”, apesar de suas diferenças, não há nenhum irremediável irresponsável. E, por último mas não menos importante, o país, diferentemente da Argentina e do Uruguai, é muito grande: uma “queda” provocaria um estrago considerável na economia mundial.

Dito isto, é imprescindível repudiar com veemência essa enorme irresponsabilidade que começa a circular pela boca dos inconseqüentes: a antecipação da posse do próximo presidente pela renúncia do presidente Fernando Henrique Cardoso, ou seja a sua “alfonsinização” (o presidente argentino Raúl Alfonsin teve que renunciar seis meses antes do fim do seu mandato para a posse antecipada de Carlos Menen).

Nem o Brasil é a Argentina nem FHC é Raúl Alfonsin. Irresponsabilidades como essa jogam lenha na fogueira a amedrontam mais ainda os investidores. O Brasil não “cai” mas pode ter que fazer um pouso forçado por falta de combustível (crédito em dólares). Vale lembrar:

“O investidor tem coragem de carneiro, velocidade de lebre e memória de elefante.”

Roberto Campos, JB, 20.09.1998

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